domingo, 10 de abril de 2011

A vida de Muhammad através da interpretação de seu seguidor filosofo

É com imenso prazer que público esta resenha do coordenador do departamento de linguas orientais da USP, o Prof. Mamede Mustafa Jarouche, que entre outros trabalhos notaveis é tradutor da coletânea de histórias conhecidas como As Mil e Uma Noites. O texto a seguir é uma resenha de uma importante biografia do Profeta Muhammed (conhecido dentro da teologia islâmica como sira), escrito por ninguém menos que Martin Lings. Lings foi um grande estudioso da lingua árabe e cultura islâmica, seus textos (infelizmente, poucos já possuem edição nacional) abordam temas do Islam tradicional, da espiritualidade islâmica (tasawwuf) e assuntos de cunho esotérico (a dimensão interior das religiões que são na verdade a transmutação para o estágio conceitual dos valores que permeiam os atos devocionais) abordados a partir de um aporte teórico que ficou conhecido na filosofia e ciências humanas de modo geral como Sophia Perennis ou perenialismo. Para os interessados em adquirir a obra podem faze-lo no site da editora Attar.
Radamés

Maomé por um fiel do Ocidente

Por Mamede Mustafa Jarouche

 

Conta a tradição muçulmana que o próprio Muhammad (m. 632 d.C.), fundador da religião muçulmana, teria recomendado aos discípulos que se abstivessem de relatos sistemáticos sobre as suas ações. Seu argumento, deveras razoável e ponderado, era o de que, sendo ele um simples ser humano – embora investido de missão profética, segundo a crença da religião que fundou – cometera tanto acertos como, eventualmente, erros, de modo que lhe registrar as ações, conferindo- lhes caráter sagrado, poderia consistir, aos olhos do vulgo, em legitimação de atos nos quais ele porventura houvesse cometido algum equívoco e depois se arrependido.
Lings usa fontes tradicionais sem modismo
A recomendação foi quebrada menos de um século após a sua morte, com registros basicamente divididos em dois gêneros: de um lado, a sira, biografia propriamente dita, que obedece ao formato tradicional das biografias, relatando sistematicamente toda a sua vida, desde a origem e apresentando o claro propósito de fortalecer o moral dos muçulmanos com uma narrativa exemplar que enfatiza justeza e verdade da missão do profeta, bem como as suas façanhas, divinamente inspiradas, em defesa da nova fé; de outro, o hadith, conjunto de relatos sobre ações, ditos e mesmo silêncios do profeta que foram utilizados como uma das fontes da legislação e da jurisprudência islâmicas, ao lado do Alcorão e da sunna, a prática ortodoxa dos primeiros conversos ao islamismo. Nessa linha, o hadith é menos laudatório que a sira, pois obedece a determinações diversas e mais eminentemente pragmáticas, ao passo que a primeira, conquanto pudesse fazer parte dos rituais de adoração, também servia, ocasionalmente, a propósitos mais ornamentais; embora seja natural o interesse pela figura do fundador de sua religião entre os muçulmanos, as inovações no gênero são relativamente escassas, com eventuais compiladores e historiadores retomando o que dissera Ibn Hisham e utilizando as fontes usuais do hadith. Mais modernamente, em especial a partir do século passado, é que começaram, de modo tímido, a espocar novidades aqui e acolá no âmbito do islã.
O pioneiro na vertente da sira (biografia) foi Ibn Ishaq (m. 768 d.C.), cuja obra, pelo visto controversa, se perdeu, tendo sido resgatada e reescrita mais tarde por Ibn Hisham (m. 828 d.C.), que deu à narrativa sobre a vida de Muhamad o formato tradicional geralmente aceito até hoje, caracterizado por uma aura sagrada e honorável. Já na segunda vertente, o hadith, a palma cabe com todos os méritos a Muslim (m. 875 d.C.) e Al-Bukhári (m. 870 d.C.), compiladores e sistematizadores de grandeza ímpar. Aliás, esse segundo gênero, o hadith, teve enorme fortuna, com a produção de inúmeros tratados ao longo dos séculos, fato esse assaz compreensível caso se leve em conta a sua importância para a própria legislação muçulmana, a shari’a.
Ao contrário do programático convencionalismo das biografias escritas em terras do islã, no Ocidente, conforme seria de se esperar, os diferentes interesses em torno da personalidade do profeta bem como do próprio islã tornam a oferta mais variada, e isso desde os primórdios, na Idade Média, com textos que vão da diatribe mais aberta à proposta de conciliação, passando, também, pelo desejo honesto de compreender essa alteridade.
Moderna, a biografia do inglês Martins Lings (1909-2005), Muhammad, é mais uma tentativa, decerto a mais bem lograda no Ocidente, de tornar legível a biografia e os feitos do homem que lançou um dos maiores desafios que a cristandade teve de enfrentar. Convertido ao islã, Lings, cujo nome árabe era Abu Bakr Siraj Ad-Din, escreve um texto cuja raridade está justamente num hábil cruzamento a que poucos se arriscam: seu relato, por um aparte, utiliza com abundância, generosidade e respeito as fontes tradicionais, sem se deixar envolver por modismos críticos aplicáveis ao caso; de outro, não abre mão do rigor de explanação, com notas, remissões e citações constantes, que conferem um cunho de legitimidade acadêmica ao seu trabalho.O resultado é um texto escorreito, cuja fluência se lê com agrado, e aderente ao ponto de vista das fontes, plenamente justificada pela conversão do autor,muçulmano devoto. Essa adesão se faz de maneira bastante sutil,com recursos poéticos na medida certa, sendo possível citar como exemplo todos os relatos sobre eventos por assim dizer sobrenaturais, os quais, recolhidos nas fontes primitivas onde se encontram descritos, são reproduzidos com tal habilidade pelo autor que o leitor passa ao largo de sua “cumplicidade”, diga-se assim, com o biografado.
Enfim, um arabista não poderia ainda deixar de ressaltar, ao lado da qualidade material da edição, os cuidados com a transcrição dos nomes árabes, o que é inusual em muitas obras similares. Sem temer o risco de causar estranhamento no leitor, a edição não hesita em lançar mão de diacríticos nas letras latinas a fim de ficar mais próxima dos sons do original. Assim, o leitor não deve surpreender-se ao encontrar, logo na capa, a palavra Muhammad do título com um pingo sob o “h” para transcrever um fonema fricativo laringal surdo que existe em poucas línguas além do árabe.

 

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O TERRORISTA NÃO PODE SER MUÇULMANO. O MUÇULMANO NÃO PODE SER TERRORISTA

Es-selamun aleykum ve rehmatullahi ve berekatuhu. Agradeço aos nossos colegas do blog Minare-i Nûr pelo excelente trabaho prestado a toda a ummah (comunidade islâmica) brasileira e também aos não muçulmanos. O sentido dessas palavras de M Fethullah Güllen é muito amplo e não se refere apenas a islamofobia a qual nós estamos reféns aqui no ocidente, ou do suposto Choque de Civilizações proposto por Huntington. Este se trata da própria parcela de culpa que os muçulmanos, evidentemente aqueles com poder de ação para tal, possuem no dramático estado de coisas que se tornou a maioria dos países islâmicos da atualidade. Reproduzimos aqui a materia originalmente difundida em lingua portuguesa pelo blog Minare-i Nûr.

O TERRORISTA NÃO PODE SER MUÇULMANO. O MUÇULMANO NÃO PODE SER TERRORISTA

"No VERDADEIRO ISLAM, não existe terrorismo!”

Por: M. Fehtullah Güllen


Os muçulmanos devem dizer: “No verdadeiro Islam, o terrorismo não existe”.

Hoje, o melhor que se pode dizer sobre o Islam é que ele é completamente desconhecido. Os muçulmanos devem dizer: «No verdadeiro Islam, o terror não existe». No Islam, matar um ser humano é um ato tão grave como a infidelidade. Ninguém pode matar um ser humano. Ninguém pode tocar numa pessoa inocente, inclusive nos tempos de guerra. Ninguém pode emitir um fatwa (pronunciamento legal no Islam) sobre este assunto. Ninguém pode ser um terrorista suicida.

Ninguém pode gloriar-se sobre uma multidão com explosivos no seu corpo, seja qual for a religião dessa multidão, já que o Islam não permite isso. Inclusive em situações de guerra — quando é difícil manter um equilíbrio — isso não é permitido no Islam. O Islam diz: “Não toqueis nas crianças nem nas pessoas que fazem adorações nas igrejas”. Isto não foi dito uma só vez, isso foi repetido no decorrer da história. O que expressou nosso educador, o Profeta Muhammad, o que disse Abu Bakr e o que ressaltou Omar é o mesmo que posteriormente disseram Salahaddin Ayyubi, Alparslan e Kılıçarslan.

Mais tarde, o Sultão Mehmet II (do Grande Estado Otomano), o Conquistador, aplicou esta regra depois da conquista da capital do Império Bizantino. Depois disso, a cidade de Constantinopla, onde reinava o desconcerto, converteu-se em Istambul. Nesta cidade, gregos, armênios, cristãos, judeus e muçulmanos, enfim diferentes nações e crenças conviviam uns com os outros com total liberdade e em paz. Pouco tempo depois da conquista de Constantinopla, as pessoas da cidade colocaram na muralha um enorme retrato do Conquistador no lugar do retrato do Patriarca. É inacreditável que esse comportamento se manifestasse naquele momento. A história conta que o Sultão chamou o Patriarca e lhe deu a chave da cidade. Inclusive hoje, o Patriarcado se lembra dele com respeito. Sem dúvida, hoje, o Islam, como em tantos outros aspectos, não é compreendido devidamente. O Islam tem respeitado sempre diferentes pontos de vista e idéias, e isto deve ser entendido para que possa ser valorizado adequadamente.

Lamento dizer que nos países onde vivem os muçulmanos, alguns líderes religiosos e muçulmanos imaturos não têm mais armas à mão do que sua interpretação fundamentalista do Islam. Usam-na para atrair algumas pessoas para lutas que servem para seus próprios propósitos. De fato, o Islam é uma fé verdadeira e deve ser vivida sinceramente. Com o fim de alcançar a fé não se pode usar meios falsos. No Islam, do mesmo modo que uma meta tem que ser legítima, também o tem todos os meios para alcançá-la. Desta perspectiva, uma pessoa não pode alcançar o Paraíso assassinando outra pessoa. Um muçulmano não pode dizer: “Vou matar uma pessoa e desta maneira ir ao Paraíso”. O beneplácito, a aprovação de Deus não se alcança matando as pessoas. Um dos objetivos de maior importância para um muçulmano é conseguir a aprovação de Deus. Outro é dar o conhecimento ao universo do nome de Deus Todo-Poderoso.

Os preceitos do Islam são claros. Os indivíduos não podem declarar a guerra. Um grupo ou uma organização tão pouco. A guerra é declarada por um estado, não pode ser declarada sem um presidente ou um exército. Se não fosse assim, trataria-se de um ato de terrorismo e em tal caso, empreenderia-se uma guerra reunindo ao redor de — e perdão por minha linguagem - vários bandidos. Qualquer pessoa pode reunir a outros a seu lado com este fim. Se as pessoas pudessem declarar a guerra a título individual, reinaria o caos; já que se formariam frentes por qualquer pequena diferença sem importância, incluindo pessoas sem juízo. Algumas pessoas diriam: “Declaro a guerra a tal e a tal pessoa”. Uma pessoa que seja tolerante com o Cristianismo poderia ser acusada da seguinte maneira: “Esta pessoa ajuda ao Cristianismo e enfraquece o Islam. É preciso ser hostil com ele e matá-lo”. O resultado seria uma declaração de guerra. Felizmente, isto não é tão fácil. Quem fizer isso — apesar de que sejam eruditos que admiro — não declara uma verdadeira guerra. Isto contradiz o espírito do Islam. As normas sobre a guerra e a paz estão claramente estabelecidas no Islam.

Não existe um autêntico mundo muçulmano

Na minha opinião, não existe realmente um mundo muçulmano. Em certos lugares vivem mais muçulmanos que em outros. O Islam se converteu num modo de vida, numa cultura; não é seguido como se fosse uma fé. Há muçulmanos que reestruturam o Islam segundo suas idéias. Não me refiro aos muçulmanos radicais e extremistas, mas aos muçulmanos comuns que vivem o Islam como se deve.

É condição indispensável do Islam, crer «verdadeiramente» e viver de acordo com o mesmo. Os muçulmanos têm que assumir as responsabilidades referentes ao Islam. Não se pode dizer que semelhantes sociedades com estes conceitos e com esta filosofia existem na geografia islâmica. Se dissermos que existem, então estamos difamando o Islam. Se dissermos que o Islam não existe, estaremos então difamando os seres humanos. Não creio que os muçulmanos possam contribuir muito para o equilíbrio do mundo num futuro próximo. Não vejo nossos administradores com essa visão. O mundo islâmico é bastante ignorante, apesar de seu moderado ressurgimento cultural em nossos dias. É possível comprovar este fenômeno durante o Hayy. Podemos ver isso manifestado em conferências e cartazes. Podemos ver isso em seus parlamentos através da televisão. Há uma séria desigualdade nesta questão. Eles — ditos muçulmanos — não podem resolver os problemas do mundo. Talvez isso se realize no futuro.

Hoje em dia existe um Islam “individual”. Há alguns muçulmanos em diferentes partes do mundo. Um a um foram se separando entre si. Eu, pessoalmente, não conheço a ninguém que seja um muçulmano perfeito. Se os muçulmanos não podem entrar em contato uns com os outros e se unirem para trabalhar juntos e resolver problemas em comum, interpretar o Universo, compreende-lo bem, considerar cuidadosamente o universo segundo o Alcorão, interpretar bem o futuro, gerar projetos para o futuro, determinar seu lugar no futuro, então não acredito que possamos falar de um mundo islâmico. Por não haver mundo islâmico, cada um atua de modo individual. Podemos inclusive dizer que há alguns muçulmanos com suas próprias verdades pessoais. Não podemos alegar que exista uma compreensão muçulmana com consenso, aprovada por especialistas capacitados, fielmente fundamentadas no Alcorão e repetidamente provadas. Poderíamos dizer que o que predomina é a cultura muçulmana em vez da cultura islâmica.

Isto tem sido assim desde o século V da Hégira (S.XI d.C.). Começou na era Abbasí e com a aparição dos Selyucidas. Aumentou depois a conquista de Istambul. Nos períodos seguintes, as portas das novas interpretações se fecharam. Os horizontes do pensamento se estreitaram. O ânimo do espírito do Islam se fechava sobre si mesmo. Começou assim a haver pessoas menos escrupulosa no mundo islâmico; pessoas suscetíveis, que não aceitavam os demais que não se abriam. Esta diminuição foi sentida também entre a irmandade dos dervixes. Dizem que também foi sentida nas madrasas (escolas de teologia). E, com certeza, todos estes princípios e interpretações precisam de revisão e renovação por pessoas experientes em seus campos.

A Rede Al-Qaeda

Uma das pessoas mais odiada no mundo é Osama (Usama) Bin Laden, por ter manchado o nome do Islam. Criou uma imagem muito ruim. Inclusive, ainda que tentássemos todo o possível para reparar o terrível dano ocorrido, levaríamos anos para repará-lo.

Falamos desta perversão por todas as partes e em diferentes fóruns. Temos escrito livros a respeito. Dizemos: “Isto não é Islam”. Bin Laden substituiu a lógica islâmica com seus próprios sentimentos e desejos. É um monstro, igual aos que lhe rodeiam. Se existir pessoas iguais a eles em qualquer outro lugar, não são nada mais que monstros.

Condenamos a atitude de Bin Laden. Sem dúvida, a única maneira de prevenir estes tipos de ações é que os muçulmanos que vivem em países que parecem ser islâmicos — e já disse com antecedência que não conheço nenhum país islâmico, mas países onde vivem muçulmanos — resolvam seus próprios problemas.

Deveriam pensar de modo diferente quando da escolha de seus líderes? Ou deveriam levar adiante reformas fundamentais? A fim de que cresça uma nova geração bem desenvolvida, os muçulmanos deveriam trabalhar para solucionar seus problemas. Não só seus problemas em matéria de terrorismo, atitude, sem dúvida, não aprovada por Deus, mas também no concernente às drogas e o cigarro, outras duas proibições feitas por Deus. Discrepâncias, agitação popular, pobreza inesgotável, a desgraça de ser governado por outros e ser insultado além de ter que agüentar ser governado por potências estrangeiras, são problemas que poderiam aumentar esta lista.

Tal e como disse Mehmet Akif Ersoy: a escravidão, problemas diversos, adicção, a aceitação de coisas não habituais e o escárnio são correntes. Tudo isto repugna a Deus, e tudo isso está fundamentalmente estabelecido em nossa nação. Superar isto, em minha opinião depende de ser um ser humano justo e dedicado a Deus.

A responsabilidade dos muçulmanos

É nosso erro; é um erro da nação. É um erro da educação. Um muçulmano de verdade, alguém que entende o Islam em todos seus aspectos, não pode ser um terrorista. É duro para uma pessoa ser muçulmano se está envolvido com terrorismo ao mesmo tempo. A religião não permite o assassinato de pessoas para cumprir uma meta.

Mas, que esforço fizemos para educar essas pessoas como seres humanos perfeitos? Com que elementos lhes vinculamos? Que tipo de responsabilidade tomamos em relação à educação, para que agora esperemos que não se tornem terroristas?

Podemos evitar que as pessoas se tornem terroristas através de algumas virtudes produzidas pela fé muçulmana, tal como o temor a Deus, temor ao Dia do Juízo Final e temor ao se opor aos princípios da religião. Sem dúvida, não estabelecemos a sensibilidade necessária sobre este assunto. Até esta data houve apenas algumas pequenas tentativas para tratar esta descuidada questão. Mas, infelizmente, alguns de nossos próprios compatriotas colocaram obstáculos no caminho.

Alguns dizem que os tipos de atividades que levamos à cabo não deveriam ser permitidas. Portanto, as matérias que ensinam cultura e moralidade, deveriam ser proibidas totalmente nas instituições de ensino. Às vezes, sustentamos que todas as necessidades da vida deveriam ser realizadas nas escolas. A educação sanitária deveria ser proporcionada e ensinada através dos médicos. As matérias que tivessem a ver com a vida em geral deveriam ser exaustivamente ensinadas na escola.

As pessoas deveriam ensinar como se comportar com suas futuras esposas e como educar seus filhos. Mas o assunto não se detém aqui. Tanto a Turquia como outros países que possuem uma grande população muçulmana sofrem do abuso de drogas, de jogo e de corrupção. Não tem ninguém na Turquia cujo nome não tenha sido envolvido em algum tipo de escândalo. Houve metas que deveriam ser alcançadas e o foram. Sem dúvida, ainda restam objetivos para serem alcançados. Não se pode perguntar a ninguém sobre isto. Não se pode pedir prestação de contas às pessoas encarregadas. Estão protegidos, amparados, e portanto, devem ser deixados em paz.

São pessoas que cresceram entre nós. Todos são filhos nossos. Por que alguns se tornaram garotos malvados? Por que alguns foram criados como metidos? Por que alguns deles se rebelaram contra os valores humanos? Por que alguns em seu próprio país se envolvem em atentados suicidas?

Todas estas pessoas cresceram entre nós. Portanto, houve alguma falha em sua educação. Logo, o sistema deve ter algumas deficiências, alguns pontos fracos que precisam ser examinados e eliminados. Em resumo, não foi dada a prioridade à educação do ser humano. Com isso, algumas gerações se perderam, se destruíram.

Uma juventude insatisfeita que perdeu sua espiritualidade. Certas pessoas se aproveitam deles, dando-lhes um par de dólares ou convertendo-os em robôs. Drogaram-nos. Trata-se de um tema que está no dia-a-dia das pessoas e que pode ser lida em todas as revistas. Abusaram destes jovens a tal ponto que podem ser manipulados. São utilizados como assassinos sob o pretexto de ideais loucos e fazem com que eles matem. Pessoas perversas pretendem cumprir certos objetivos utilizando estes jovens.

Transformaram-se em robôs. Numa ocasião, muitas pessoas foram assassinadas na Turquia. Este grupo matou certa pessoa; esse outro grupo matou a outra pessoa. Em 12 de março de 1971, todos se envolveram em uma sangrenta luta. O exército entrou em cena e interveio. Em 12 de setembro de 1980, as pessoas saíram para se vingar umas das outras. Todos se mataram. (A Turquia sofreu três golpes de estado militares durante a segunda metade do século XX. As datas mencionadas correspondem ao primeiro e ao segundo golpe respectivamente, que aconteceram pelo mal-estar social reinante).

Uns queriam conseguir algo matando os demais. Todos eram terroristas. Os que estavam de um lado eram terroristas; os do outro lado, também, e cada um qualificava a ação de modo diferente. Uns diziam: “Faço isto em nome do Islam”. Outros diziam: “Faço isto por minha terra e por meu povo”. Um terceiro dizia: “Luto contra o capitalismo e a exploração”. Eram apenas palavras. O Alcorão fala sobre as ditas “etiquetas”. São coisas sem valor. Mas as pessoas seguem matando. Todos matavam em nome de um ideal.

Em nome destes sangrentos “ideais”, muita gente foi assassinada. Não era nada mais que terrorismo. Tanto os muçulmanos como os não muçulmanos cometiam o mesmo erro. Estes assassinatos se converteram em uma meta “realizável”. Assassinar se converteu em um hábito. Todo mundo se acostumou a assassinar, apesar de que assassinar é uma ação perversa. Uma vez, um de meus mais queridos amigos matou a uma serpente. Era um licenciado em teologia e é agora um pregador. Como reação ante o que ele fez: não falei com ele durante um mês. Disse-lhe: “Essa serpente tinha direito de viver na natureza. Que direito tinhas de matá-la?”.

Hoje em dia a situação é tal que se matam dez ou vinte pessoas ou, se as baixas não são tão elevadas como se esperava, dizemos: “Isso não está tão mal, não morreram muitos”. Esta incrível violência se converteu em aceitável para as pessoas a um nível inacreditável. Costumamos dizer: “Está bem que o número de mortos seja só vinte ou trinta”. Em resumo, a sociedade em geral terminou aceitando isto como parte de nossas vidas.

Esta situação poderia ter sido evitada por meio da educação. As leis do governo poderiam ter prevenido isso. Alguns grupos minoritários e protegidos e os que não se pode deter exageram nos assuntos triviais e encobrem os insignificantes. Existe um remédio para isto. O remédio é ensinar a verdade diretamente. Devemos deixar claro que os muçulmanos não podem ser terroristas. Por quê? Porque as pessoas hão de compreender que, se fazem algo mal, “ainda que seja do tamanho de um átomo, pagará por isto nesta e na Próxima Vida” (O Alcorão, 99:7-8).

Sendo assim, matar a um ser humano é algo sério. O Alcorão diz que matar uma só pessoa é como matar todo o mundo. Ibn Abbas disse que o assassino permanecerá no inferno eternamente. É o mesmo castigo que o que se junta com os incrédulos. Isso significa que o assassino estará submetido ao mesmo castigo que o incrédulo. Portanto, no Islam o respeito ao castigo que receberá no Dia do Juízo Final, o assassino será considerado tão baixo como quem desprezou a Deus e ao Profeta (quer dizer: um ateu). Se isto é um princípio fundamental da religião, deveria ser ensinado através da educação.

* Autor deste artigo é M.Fethullah Gülen: www.fgulen.com (o site disponível em mais de 20 idiomas)

Hádice

Este post é um ato de reproduzir um belo hádice (dito ou feito atribuido a Seyydina Muhammed (que a paz e as bençãos de Allah estejam com ele)) que o nosso irmão Marcelo Hinz utiliza como descrição de seu profile no site de relacionamentos Orkut. Gostaria de agradece-lo por nos lembrar dessas valiosas palavras e que Allah o Altíssimo o bendiga por este ato, e que assim seja! Amin.




Khálid Ibn Al Walid narrou:


"Um beduíno foi ter com o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus, o Altíssimo, estejam sobre ele) e lhe pediu:
-Ó Mensageiro de Allah, vim te fazer algumas perguntas a respeito desta vida e da Outra.

Disse-lhe o Profeta de Deus:

-Pergunta o que quiseres. 

Pergunta: Gostaria de ser a pessoa mais sábia...
Resposta: Teme a Allah, e serás a mais sábia das pessoas.

P: Gostaria de ser a mais rica das pessoas...
R: Contenta-te, e serás a mais rica das pessoas no mundo.

P: Gostaria de ser a pessoa mais justa...
R: Deseja aos outros o que desejas a ti, e serás a mais justa das pessoas.

P: Gostaria de ser a melhor das pessoas...
R: Faze o bem aos outros e serás a melhor das pessoas.

P: Gostaria de ser a mais favorecida pessoa por Allah...
R: Ocupa-te cada vez mais em aprazer a Allah, e serás o mais favorecido por Ele.

P: Gostaria de completar a minha fé...
R: Se tiveres boas maneiras, terás completado a tua fé.

P: Gostaria de pertencer àqueles que praticam o bem...
R: Adora a Allah como se O estivesses vendo. Se não O estiveres vendo Ele te estará vendo. Dessa maneira
estarás dentre aqueles que praticam o bem.

P: Gostaria de ser obediente a Allah...
R: Se observares os mandamentos de Allah serás obediente.

P: Gostaria de estar livre dos pecados...
R: Banha-te das impurezas e estarás livre dos pecados.

P: Gostaria de ser elevado para a luz no Dia do Juízo Final...
R: Não faz mal a ti próprio nem a outras pessoas, e serás elevado na luz no Dia do Juízo.

P: Gostaria que Allah me concedesse Sua misericórdia....
R: Se tens misericórdia de ti e dos outros, Allah te garantirá Sua misericórdia no Dia do Juízo.

P: Gostaria que meus pecados fossem poucos...
R: Se pedires perdão a Allah, tanto quanto puderes, teus pecados serão muito poucos.

P: Gostaria de ser a mais honrada das pessoas...
R: Se não te queixares a nenhum dos teus semelhantes, serás a mais honrada das pessoas.

P: Gostaria de ser a mais forte das pessoas...
R: Se confiares em Allah, serás a mais forte das pessoas.

P: Gostaria de aumentar as minhas provisões...
R: Se te conservares puro, Allah aumentará as tuas provisões.

P: Gostaria de ser amado por Allah e Seu Mensageiro...
R: Se tu amares o que Allah e Seu Mensageiro amam, estarás dentre aqueles que são amados por Allah e Seu Mensageiro.

P: Gostaria de estar livre da ira de Allah, no Dia do Juízo...
R: Se não perderes a paciência com qualquer um de teus semelhantes, estarás salvo da ira de Allah no Dia do Juízo.

P: Gostaria que minhas preces fossem atendidas...
R: Se evitares o ilícito, as tuas preces serão atendidas.

P: Gostaria que Allah não me desonrasse no Dia do Juízo...
R: Se guardares a tua castidade, Allah não te desonrará no Dia do Juízo.

P: Gostaria que Allah me agraciasse com uma coberta protetora no Dia do Juízo...
R: Não descobre as faltas de teus semelhantes, e Allah te fornecerá proteção no Dia do Juízo.

P: O que me salvará dos pecados?
R: Lágrimas, humildade e enfermidade.

P: Quais são as melhores ações aos olhos de Allah?
R: Gentileza, modéstia e paciência.

P: Quem são as piores pessoas aos olhos de Allah?
R: Os exaltados e os mesquinhos.

P: O que aplaca a ira de Allah nesta vida e na Outra?
R: A caridade oculta e a bondade para com os pais.

P: O que extingue o fogo do Inferno no Dia do Juízo?
R: A paciência na adversidade e na desventura."

(Ahmad Ibn Hanbal)

European Muslim Women of Influence

Visitando o blog da irmã Salma fiquei surpreso e ao mesmo tempo muito feliz ou encontrar o link de uma web page (http://www.cedar-emwi.com/) que faz parte de um concurso para eleger as mais influentes muçulmanas da Europa. O evento ocorreu no dia 30 de Outubro de 2010, mas vale a pena ler as biografias das vencedoras do concurso, o website esta em inglês. E que venham as candidatas de 2011



domingo, 3 de abril de 2011

Cultura e intelecto

Traduzi este pequeno texto escrito por Abdassamad Clarke, que apesar de estar se referindo a realidade enfrentada na Inglaterra (e na Europa de modo geral), é bastante semelhante com os problemas que nós nos deparamos em nossa ummah (comunidade islâmica) aqui do Brasil. Espero que este texto abra espaço para discussões acerca dessa lastímável cisão que a comunidade islâmica vem enfrentando. 
Radamés

CULTURA E INTELECTO
 
Por Al Hajj Abdassamad Clarke

Os muçulmanos tem sido enganados pela falha agenda do muliculturalismo que faz do Islam algo intrinsicamente estrangeiro.
A vestimenta é um desses aspectos. A questão da vestimenta, tanto para homens quanto para mulheres, é a modéstia e o ato de cobrir aquilo que não pode ser visto em público. Cada raça, nação e cultura encontrou algo de sua cultura indígena que se enquadrou nestes critérios. Muitos muçulmanos modernos do ocidente, ao contrário, vêem a questão como cultural, e que o Islam exige um certo estilo cultural de vestimenta. O resultado é o clima atual, em que os segmentos mais oprimidos, desfavorecidos e ignorantes de nossa sociedade estão sendo levados a acreditar que os muçulmanos são a fonte de todos os seus problemas, as mulheres muçulmanas, por exemplo, devem suportar as incessantes hostilidades quando vão efetuar seus afazeres diários porque elas escolheram ganhar destaque culturalmente como pertencentes a uma cultura estrangeira.
O design das mesquitas é outro ponto. Uma mesquita é basicamente um espaço aberto para a adoração a Allah. Se estiver um clima frio, provavelmente necessite de algo para se proteger do frio, se estiver um clima quente, ela precisa de áreas sombreadas para manter-se livre do sol. As antigas mesquitas árabes eram estilisticamente e arquitetônicamente diferentes das mesquitas persas, da qual difere-se das mesquitas chinesas, que são diferentes das mesquitas do sub-continente indiano ou das mesquitas otomanas, da qual é diferente da grande mesquita do Jenné. No entanto, no ocidente, as pessoas insistem em importar estilos alíenigenas de arquitetura que ficam a reforçar a agenda do "multiculturalismo" onde o Islam é uma cultura e não uma ciência, uma escola filosófica ou um estilo de vida.
Tudo isso resultou em uma resposta exaltada e hostil das populações nativas (os ocidentais) em relação ao Islam, que eles percebem como sendo cultural, precisamente porque os muçulmanos apresentam o Islam como sendo uma questão cultural, como algo estrangeiro. Além de causar sofrimento para um grande número de pessoas, isso prejudica o nosso dever fundamental, que é o de chamar as pessoas para Allah, O Altíssimo e ao seu Mensageiro (que Allah o abençõe e lhe dê paz), de uma forma racional e significativa e NÃO a uma de nossas muitas culturas nacionais ou uma cultura sincrético "islâmica".
Quanto ao símbolo de Islam "britânico" ou "europeu" que normalmente é apontado pelas pessoas menos qualificadas a fazê-lo, e cujo o movimento é irrefreável, mas esta não é a questão. Ninguém precisa criar uma forma "Britânica" de Islam, mas sim, devemos nos preocupar com o nosso din (sistema) e a identidade cultural vai falar por si própria.

domingo, 20 de março de 2011

O Sheikh Americano Hamza Yusuf: De Ortodoxo a pregador do Islamismo

 Esta materia foi originalmente publicada pelo Centro de Divulgação do Islam para a América Latina, lhes dou os parabéns pela bela iniciativa de escrever sobre um dos maiores sábios muçulmanos da atualidade
 por Sheikh Esadik Elotmani
Com a graça de Deus, estou a quatro anos participando das palestras religiosas “Adourous Alhassaniya”, proferidas durante o mês sagrado do Ramadã, na presença e sob a presidência de “Amir Al-Mouminine” sua Majestade  o Rei Mohammed VI, que Deus o proteja, e na presença também, de um seleto grupo de sábios, xeiques, pregadores, recitadores do Alcorão e renomadas personalidades do mundo da cultura e do pensamento, vindos de dentro e de fora do Marrocos.
Através dessas palestras tive a oportunidades de conhecer inúmeros sábios religiosos, entre eles o digno pregador americano Hamza Yusuf, que adotou este nome em substituição ao seu nome de batismo “Mark Hatssen”, por motivo de sua conversão ao Islamismo.
Antes de conhecer a história de sua conversão ao Islamismo, imaginava que fosse marroquino ou tunisiano, por dominar perfeitamente o idioma árabe clássico, falá-lo fluentemente e ter a pronúncia sem nenhum sotaque estrangeiro. O Sheik Hamza é conhecido pela capacidade de memorizar poemas clássicos antigos, em especial, os famosos poemas que foram expostos ao público nos mercados da sociedade árabe anterior ao Islamismo. No âmbito das palestras do mês sagrado do Ramadã denominadas “A Dourous Alhasaniya”, o Sheik Hamza teve a honra de ministrar diante de sua Majestade o Rei Mohammed VI, palestra religiosa intitulada: “A importância da exemplar conduta religiosa para a nação islâmica”, com base na palavra de Deus do sagrado Alcorão: “Ele foi quem escolheu, entre os iletrados, um mensageiro de sua estirpe, para ditar-lhes os seus versículos, consagrá-los e ensinar-lhes o Livro e a sabedoria, porque antes estavam em evidente erro”.
Ao relembrar que o Reino do Marrocos revelou ao longo de sua história gloriosos professores de alma purificada e conduta religiosa exemplar, o Sheik ressaltou em sua palestra que a orientação religiosa se dá por meio de duas ações principais: Purificar a alma de doenças e da má conduta, e alimentá-la de moral e ética.
O pregador americano Hamza Yusuf, quando acompanhado a uma mesa de jantar ou tomando chá marroquino com hortelã, em um dos salões da Avenida Mohammed V, em Rabat, costuma debater e abordar assuntos proveitosos. São os seus momentos preferidos para elucidar antigas teorias filosóficas de grande benefício para a humanidade ou explicar o significado e a origem de alguma palavra em árabe. Também são para ele momentos de rebater, com provas conclusivas, argumentos usados pelas pessoas que pregam o ódio e o extremismo, e contestar suas abordagens inúteis para compreender os propósitos da religião. Às vezes procura agradar as pessoas que o acompanham, cantarolando músicas americanas que estimulam o amor, a esperança, a coexistência e a paz. Em resumo, o Sheik procura deixar boa impressão na pessoa que o acompanha e por isto, sua pregação faz uso de elementos extraordinários como a espiritualidade do místico, racionalidade do pensador, sabedoria do filosofo, firmeza do “faqih”, paciência de profetas, coragem de líderes, amor e carinho de mãe... Ama e respeita todas as pessoas de diferentes religiões, doutrinas e raças. Ele é o exemplo do pregador moderno que a mídia americana e a britânica o descrevem como ”a estrela da nova geração muçulmana”. Em poucas palavras, o Sheik Hamza Yusuf é o exemplo do pregador moderado, que mostrou ter profunda consciência do seu papel e de seu tempo como muçulmano, que procura levar para a humanidade a mensagem de paz, amor, misericórdia e bondade, inspirado na divina regra corânica: (Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Deus, é o mais temente. Sabei que Deus é sapientíssimo e está bem inteirado. (Al-Hujuraat). Segundo a palavra do Profeta Muhammad, que a Paz e a Bênção de Deus estejam sobre ele, “o verdadeiro muçulmano é aquele que não calunia e nem faz mal às pessoas”.
Nascido em 1960, em Washington, o Sheik Hamza Yusuf é oriundo de uma família culta. Seu pai é um professor na área das humanas da Universidade "Harvard", sua mãe é graduada da tradicional universidade de "Berkeley", já o seu avô foi prefeito de uma cidade da Califórnia, onde o Sheik foi educado e cresceu numa família de gregos ortodoxos. Estudou filosofia na universidade e criou vínculos de amizade com estudantes do “Maghreb Árabe” e do Oriente Médio. Passou também, a frequentar grupos de negros americanos muçulmanos e se deixou influenciar por suas idéias, que o motivaram a realizar pesquisas teológicas, com o intuito de ampliar seus conhecimentos sobre a religião islâmica.
Um grave acidente de transito que o pregador Hamza Yusuf sofreu, e que quase o levou à morte, serviu de incentivo para se abrir às religiões monoteístas e mergulhar na busca da verdade e dos segredos da vida e da morte. Neste contexto, foi muito atraído pela leitura do Alcorão e, no final desta ávida persistência atrás da verdade e do criador deste mundo, acabou se convertendo ao Islamismo, em 1977, aos 17 anos de idade. Em seguida, largou os estudos universitários e viajou ao Oriente em expedição cientifica que durou dez anos. Ao longo desse período, estudou teologia no Instituto Islâmico da cidade “Al-Ain” nos Emirados Árabes Unidos, tendo sido aluno de renomados professores como o Presidente do Supremo Tribunal em Abu-Dhabi e o Sheik Mohammed Ahmad Shibani, “Mufti” dos Emirados Árabes Unidos (doutrinador). Concluiu o curso de “Achariah Islâmica” (legislação islâmica) na Arábia Saudita, sob a orientação do Sheik Mahmoud Mokhtar Shanquiti, Decano da Faculdade de Teologia da Universidade Islâmica na Medina.  Estudou língua árabe, poesia e gramática no Marrocos. Levou uma vida de Sufista com alguns sábios mauritanos, que o influenciaram quando ainda aluno do renomado sábio Sheik Abdollah Ben Bihto, também se deixou influenciar pelas pesquisas e publicações do Ministro marroquino de “Habous” e dos Assuntos Islâmicos, Ahmed Toufiq, sobre o “Sufismo Sunita”.
No início de 1990, o Sheik Hamza Yusuf começou a ensinar nas comunidades islâmicas, e em 1996, criou o “Instituto Zeitouna”, na Califórnia, no qual passou a ministrar palestras. Hoje, Yusuf é um dos grandes estudiosos e pregadores do Sufismo no mundo ocidental, de credo sunita, abordagem moderada, rito “Malekita” e método Sufista.  Sua campanha em prol da convivência pacifica entre as pessoas incomodava muitos pregadores do “Jihad” e da blasfêmia, resultando em manobras que desqualificavam seu trabalho, sendo acusado de desviar da verdadeira orientação do Profeta, que a Paz e a Bênção de Deus estejam sobre ele,  e da conduta dos primeiros muçulmanos. Por este motivo, o Sheik Yusuf entende que o principal obstáculo à pregação do Islã no mundo ocidental são os próprios muçulmanos, em razão de suas atitudes. A este respeito, declarou: ”na verdade, aqueles que imigraram para América e Europa com seus problemas lotam as mesquitas, e os novos muçulmanos estão muitos aborrecidos com essas contradições”. Neste sentido, o pregador acrescentou: “no Ocidente temos idiotas afirmando que os muçulmanos são demônios, como temos também entre os muçulmanos idiotas que afirmam que o Ocidente é o diabo....Sinto muito, somos todos seres humanos do bem e do mal, existem pessoas boas no Ocidente, e há pessoas boas no mundo muçulmano .. Como explicar a atitude de um milhão de manifestantes Ingleses  saindo na rua para protestar contra o bombardeio de alguns países muçulmanos!!!... Você pode dizer que estes são cristãos, mas nem por isso se justifica bombardear suas casas!!!...”
Apesar de adotar um discurso renovado e moderno, o Sheik Yusuf entende que as quatro correntes do islamismo são importantes e “todo muçulmano deve ser adepto de uma delas”. Ele critica aqueles que as ignoram e diz: “Incentivam as pessoas a ignorar as quatro doutrinas e a extrair conclusões diretamente do Alcorão, embora sejam incapazes de entender as regras gramaticais...”.
Há de se ressaltar que o Sheik Hamza Yusuf é o autor de muitos livros como: a Lei do “Jihad”, Educação de crianças na era moderna, Uma agenda para mudarmos nossa realidade. O Sheik também, apresenta programas no canal de televisão MBC.

sábado, 19 de março de 2011

O Alcorão e a Contemplação


O Alcorão e a Contemplação

Por: Shaykh Osman Nuri Topbaş


"Se o Alcorão não nos tivesse aberto as portas para a contemplação, teríamos sido privados de muitas realidades, percepções e benefícios." Osman Nuri Topbaş
Perfeição é um atributo divino de Allah que é manifestado neste mundo de três formas: Na Humanidade, no sagrado Alcorão e no universo.
O homem foi criado com todos os atributos divinos, que são a base para a essência de toda a criação. A mesma manifestação dos nomes ainda é visto de uma forma diferente: as palavras do Alcorão. Comparado ao homem, o Alcorão é a manifestação mais elaborada, mas devido a unidade existente entre eles, é dito:
“A Humanidade e o Alcorão são uma dualidade...”
O terceiro local onde as manifestações dos Divinos Nomes ocorrem é no universo.  Que é uma espécie de interpretação do Alcorão. O universo é um Alcorão silencio e o Alcorão é um universo repleto de palavras. Dentro destes raios sonoros e silêncios do Alcorão, o ser humano é em sua essência uma criatura da Perfeição. Como resultado, a humanidade, o Alcorão e o universo são uma trina manifetação do Deus Unico. Como os céus marca o reinado de poder para as estrelas, até o dia do julgamento, assim no Alcorão,  a prosperidade e o futuro dos seres humanos vai brilhar no céu de "versos" e viver até o dia do julgamento. A artir desta perspectiva, o mais afortunado e propero é aquele que se reuni sob a sombra do Alcorão recebendo seus beneficios.
Os segredos sobre toda a verdade e misterios esta oculto no Alcorão e toda a alegria se torna aparente com a fé. Allah o Todo-Poderoso pode esconder um grão de areia do mar, ou um oceano de areia, ou pode fazê-los visiveis a ambos.
Mawlana Rumi relatou aos seguidores mostrando-lhes esta realidade:
“ Uma vez tive a aspiração em ver a Luz de Deus no Homem. Era como se eu quisesse ver o mar em uma unica gota ou o sol em um unico raio.”
O principal meio para o filho do homem de atingir seus verdadeiros desejos e aspirações é a contemplação da verdade. A única maneira de alcançar a essência da verdade é através da contemplação e curiosidade.
Através da contemplação do coração, efeitos sutis do mundo e seus mistérios são manifestados. As exceções são para aqueles que vivem suas vidas em violação do imperativo do Divino Criador, perdendo suas vidas sem saber o verdadeiro valor de qualquer um dos seus desejos ou de si mesmo, incapaz de alcançar a riqueza espiritual necessária para a prosperidade eterna, eles vivem em um abismo de frustração.
Os seres humanos devem viver suas vidas com honra e dignidade, com realizações e contemplação das conseqüências da morte. A morte, que nos rodeia como um anel de chamas que vai esmagar-nos, sem dúvida. Quando o futuro torna-se uma inescapável realidade, a contemplação, torna-se clara para o homem, é a coisa mais valiosa da qual ele se ocupa. Com isso em mente, se o filho do homem familiariza-se com o segredo do universo, do Divino e da sabedoria, para ele encontrar o verdadeiro caminho da contemplação, é preciso de orientação do Alcorão.
Se fosse possível ao homem agir, viver e perceber sozinho, apenas através da contemplação, não haveria necessidade de um Alcorão, e Deus o Todo-Poderoso, então não teria enviado mensageiros ou Escritura.
Ou seja, a natureza do homem exigiu uma orientação Divina para exercitar suas faculdades criadas para instrução e contemplação.
Sem o Alcorão sempre será possível ao homem chegar ao conhecimento de determinados atributos de Deus, tais como singularidade[1] ou auto-suficiência[2]?
O Alcorão orienta-nos para a senda reta, com avisos e, a partir deste oceano de verdades nos beneficia da melhor maneira possível, com a contemplação e a paixão.
Se o Alcorão não nos tivesse aberto as portas para a contemplação, teríamos sido privados de muitas realidades, percepções e benefícios. Considerando isso, é preciso gastar todas as nossas energias intelectuais na busca de entender o conteúdo infinito do Alcorão, é claro, isto deve ser realizado dentro de limites específicos. Os versos do Alcorão, como um sistema vivo, são uma fonte inesgotável de conhecimento.
O Alcorão tem muitas advertências, juntamente com as orientações e escopos, para a humanidade sobre como devemos conduzir a nossa contemplação e investigação. Devemos, em todos os sentidos, compreender e reconhecer que a cada ser humano tem sido dada a inteligência para avaliação, e a verdade do Alcorão é de tal grandeza que se render a sua sabedoria é absolutamente necessário para todos.
Quando uma pessoa percebe sua incapacidade de compreender adequadamente qualquer comentário do Alcorão devem dizer "Deus sabe melhor ..." temos de acreditar que a verdade real é conhecido somente por Deus, o Todo-Poderoso.
Talvez não haja diferença significativa entre as características da água da torneira nas nossas casas e água do mar, não há, no entanto, uma diferença significativa entre as quantidades de agua das duas? Se uma pessoa cega desde o nascimento, tivesse sido descrito a ele certa cor, as palavras que ele iria usar dariam talvez uma boa impressão para ele, mas quão longe iria a impressão em sua mente a partir da realidade da cor da sua existência real? Isto é imensurável.
Temos de olhar para as palavras do Alcorão com a mesma lógica, e estando sempre ciente de nossa inaptidão e incapacidade para compreender plenamente o significado contido no Alcorão, o que deve nos impedir de afirmar que a nossa própria interpretação é perfeita ou exata.
O Alcorão é um guia único de fé e prosperidade, o qual contém muitos versos em que somos convidados a contemplar a sabedoria por trás da criação do homem. A natureza milagrosa do universo em muitos versículos nos mostram que o Alcorão é uma declaração desses milagres. Aqueles que optam por viver de acordo com a dignidade da humanidade deve seguir as orientações da contemplação indicadas no Alcorão.
As pessoas conscientes que contempla os eventos do universo devem procurar as respostas para estas perguntas:
O que é o universo? Por que fui criado? Qual é a verdade da mortalidade e da sua essência? Qual é o caminho para a prosperidade? Quem sou eu? Como devo viver? Como devo pensar? Quais são os preparativos que devo fazer para a minha saída do mundo mortal?
Embora o universo como um todo, não é perturbado pelo poder do homem e dos seus cálculos, existe uma maneira que o homem, como a maior criação e inteligência, poderia agir de acordo com o Alcorão e ainda ser derrotado por seu desejo e pelos desejos?
Deus disse no Alcorão:
“Pensais, porventura, que vos criamos por diversão e que jamais retornareis a Nós (para prestares contas)?” (Al Mu’minûn, 23:115)
“Pensa,acaso, o homem, que será deixado sem controle (sem propósito)?” ( Al Quiáma, 75:35)
A infância de uma pessoa termina na puberdade. Para os crentes que despenderem esforços para aperfeiçoar a sua fé, a puberdade marca o início de um novo período de responsabilidade. Durante este período são necessários a contemplação da maturidade, da mente, do coração, dos divinos segredos do universo, da sabedoria sagrada e a verdadeira consciência é apenas aparentes para as almas com a verdadeira fé. Como é afirmado no seguinte versículo do Alcorão:
“Porém, não reparam, acaso, no firmamento que está acima deles? Como o construímos e o adornamos, sem abertura aparente? – E dilatamos a terra, fixando nela (firmes) montanhas, produzindo ai toda a formosa espécie em pares, – Para a observação e recordação de todo o servo contrito. (Caf, 50:6-8)
Nós experimentamos o nascer e o pôr do sol, o surgimento de estrelas na noite e seu desaparecimento com a luz natural, a lua cheia e a lua crescente, o universo repleto de seus ornamentos magníficos e bênçãos inumeráveis ​​além destas. Algumas pessoas desperdiçam suas vidas neste mundo na cegueira e ingratidão por essas bênçãos, sem considerar a sabedoria destas criações ou a sabedoria de seu Criador. Aqui esta um aviso assustador para essas pessoas:
“E não foi em vão que criamos os céus e a Terra, e tudo quanto existe entre ambos!” (Sâd, 38:27)
“E não criamos os céus e a terra e tudo quanto existe entre ambos para Nos distrairmos. – Não os criamos senão como prudência; porém, a maioria o ignora.” (Ad Dukhan, 44:38-39)
O mundo celestial é uma notável exibição de sinais majestosos. Toda a alma de fé que, conscientemente, a vida nesta morada da beleza, ele que sensibiliza-se frente as calamidades do mundo e as catástrofes irá obter prazer espiritual. Nós lemos no Alcorão:
“Não reparas, acaso, em que Allah faz descer a água do céu e a transforma em fontes, na terra? Logo produz, com ela, plantas multicores; logo amadurecem e, às vezes, amarelam; depois converte (as plantas) em feno. Por certo que nisto há uma mensagem para os sensatos.” (Az Zúmar, 39:21)
“Na criação dos céus e da terra; na alteração do dia e da noite; nos navios que singram o mar para o beneficio do homem; na água que Allah enviou do céu, com a qual vivifica a terra, depois de haver sido árida e onde disseminou toda a espécie animal; na mudança dos ventos; nas nuvens submetidas entre o céu e a terra, (nisso tudo) há sinais para os sensatos.” (Al Bacára, 2:164)
Efetivamente, para quem vê a verdade, o amor da luz divina do paraíso e a paixão irrompendo como esmeraldas na terra. Os céus e a terra são como um anel, em torno do afeto que ele contempla profundamente, atento ao chamado aparente e espiritual, conciliando a evolução do amor pelo divino e o ato de viver em perfeição espiritual.
Deus o Altíssimo revelou:
“Ele foi quem dilatou a terra, na qual dispôs sólidas montanhas e rios, assim como estabeleceu dois gêneros de todos os frutos. É Ele Quem faz o dia suceder a noite. Nisto há sinais para aqueles que refletem.” (Ar Rád, 13:3)
Aqueles que encontram prazer na devoção a Deus, e que seguem o caminho de Seu mensageiro, une-se a um elo de afeição que é a linha de frente da fé. Fé (Imân) é um sentimento celestial da Luz Divina na alma e do fluxo do divino afeto alojado no coração.
Aqueles que observam o universo com um coração iluminado vão atingir uma sensação de como que os céus fossem um lustre de cristal brilhante piscando com os segredos Divinos. Todas as arvores sobre a terra se espalharam com seus ramos e folhas a tremerem em alegre suplica ao Criador. A grama será como os companheiros do mensageiro de Deus e as folhas acima serão a alegre comunidade (ummah). As nuvens serão como uma fonte flutuante de prosperidade que circulam o céu como um oceano. O vento será como um mensageiro de inspiração Divina a aliviar o medo com centelhas de esperança.  Trovões e seus raios de reinado e comandos de destruição e ataque avisando a cegueira.
Em breve o universo se manifestara como um silencio sedutor cheio de versos do Alcorão , o livro dos mistérios, os nomes divinos manifestados em verbos. O Alcorão e o universo cheios de palavras. A humanidade é o foco de conhecimento e a manifestação do cruzamento entre ambos.
Sayyidina Aisha relatou sobre a compassiva alma do Profeta:
Certa noite, o Profeta disse-me: 'Ó Aisha, se você me der permissão, gostaria de passar a noite em adoração ao Todo-Poderoso." Eu respondi: ' Por Deus eu amo estar com você, no entanto, Eu amo ainda mais as coisas que amás. 'Então ele fez a ablução e pôs-se para a oração. Ele começou a chorar, tanto que suas roupas, sua santa barba e até o chão, onde ele se prostrou estavam molhados.
Durante esse estado, Bilal chegou para chamá-lo à oração; ao vê-lo naquele estado Bilal disse-lhe: 'Ó Mensageiro de Deus,  Allah, o Todo-Poderoso o perdoou, a você todos os seus pecados passados ​​e todos os seus pecados futuros, então porque você está chorando? 'O Profeta lhe respondeu: "Eu não deveria ser um servo agradecido de Deus? Por Deus, hoje à noite desceram para mim os versos (do Alcorão) de peso, de tal forma que se alguém lê-los e não contemplá-lo seria uma grande vergonha. "
Então ele leu este verso:
“ Na criação dos céus e da terra, e na alternancia do dia e da noite há sinais para os sensatos. – Que mencionam Allah, estando em pé, sentados ou deitados, e meditam na criação dos céus e da terra. Dizendo: Ó Senhor nosso, não criaste isso em vão. Glorificado sejas,! Salva-nos do tormento infernal!” (Al Imran, 2:190-191) (Esse dito foi compilado por Ibn Hibbân, II, 386)
Na noite em que esses versículos foram revelados a ele, o Mensageiro de Deus chorou até a manhã de tal forma que até mesmo os céus e as estrelas estavam com inveja dele. Com as bênçãos de Deus Todo-Poderoso as lágrimas dos fiéis tem a certeza de serem os adornos da noite da passagem, à luz da sepultura e as gotas de orvalho dos jardins do Paraíso. alguns meses, dias e noites de tal bênção que são momentos de oportunos para se estar com o Amado. alguns meses de mais valor do que outros. O mês de Rajab é um desses períodos.
Mesmo durante a época pré-islâmica, durante o chamado "período de ignorância", espadas eram mantidos em suas bainhas e a paz reinava durante este mês. Com o advento do Islã, a cortesia e honra durante o mês de Rajab continuou. Este mês sagrado foi agraciado com duas noites abençoadas, a primeira sexta-feira do mês chamado Raghâ'ib e a 27º noite do mês chamada Mi'raj.
Um dos nossos principais deveres deve ser passar essas noites abençoado adornando-se com amor espiritual pelo Profeta (que a paz e as bençãos estejam com ele), porque a afeição do Profeta é a nossa riqueza e felicidade. O sábio que obedecer ao Santo Profeta, com sincero afecto estarão entre os Profetas, os verdadeiros, os mártires, os virtuosos e todos aqueles que alcançaram as bênçãos de Deus Todo-Poderoso.
Que Deus o Todo-Poderoso encha nossos corações com transbordante prosperidade que estes sagrados e esclarecedores dias, noites e meses trazem, e que adornem os nossos corações com carinho para o abençoado Profeta. Que Deus nos dê a alegria de estar entre aqueles que vão acompanhar o Profeta no Dia do Juízo Final, aqueles por quem Ele vai interceder.

Dar ao nosso mundo islâmico prosperidade, conquistas e abundância.
Ó Senhor! Nós somos viajantes a caminho de um lugar de profunda solidão. Faça de nossa fé, como o sol, os nossos companheiros como profetas e virtuosos, e que os nossos jardins da felicidade sejam nossas boas ações!
Ó Deus! Coloque-nos entre aqueles que olham com admiração para o universo e todos os seus fenômenos com a presença de coração! E dar aos nossos corações a bênção de seu comando poderoso: "Leia! "[3]
Amém

Tradutor: Radamés AbdulHakim Rodrigues

O original em inglês se encontra no link:
http://www.sufiwisdom.net/index2.php#sayfa=yillar&MakaleNo=d021s005m1


[1] Ahadiyyat
[2] Samadiyyat
[3] Segundo a tradição islâmica estas foram as primeiras palavras que o Anjo Gabriel (que a paz estejam com ele) disse ao Profeta Muhammed (que a paz e as bênçãos estejam com ele) em seu primeiro encontro na caverna. N.T.