sábado, 16 de abril de 2011

O Caminho de Amor Islâmico

 Este foi um dos primeiros textos que eu li sobre o sufismo (a ciência islâmica do aperfeiçoamento do cárater) e ele me ajudou muito, pois me mostrou a direção até que eu pudesse conhecer o querido Sheikh Muhammad Ragip al-Jerrahi. Os dois encontros que tivemos na tekke da Penha mudaram o meu modo de ver as coisas e hoje graças a Deus tenho uma visão mais completa e orgânica sobre a religião do Islam. Não poderia deixar de repostar tão valioso material. 

O Caminho de Amor Islâmico
 
Na busca da união do exterior e interior, os dervixes buscam, no sufismo, o caminho do amor por meio de práticas místicas, sintonizando corpo e coração ao lembrar de Deus
por Laila Ayoub
caminho místico encontrado por alguns muçulmanos para aproximar a realidade interior daquela pregada pela shariah, o conjunto das leis islâmicas: essa seria uma possível primeira e sintética explicação do sufismo. Mas o sufismo não se propõe a ser explicado, senão vivido. E é com o intuito de experenciá-lo que o dervixe, nome dado ao iniciado praticante, vale-se da orientação de um mestre, pertencente a uma ordem. Existem pelo menos 800 ordens sufis, hoje, no mundo. Há cerca de 300 anos, eram mais de três mil, segundo o sheikh Ismail Çimen, da Ordem Halveti Jerrahi.

Um homem rezando o "tasbi", colar de contas muçulmano, que equivale ao rosário cristão
Fundada pelo Pir Nureddin al-Jerrahi, no século XVII, em Istambul, essa ordem possui seguidores em países como os EUA, Chile e Argentina. Já no Brasil, o sufismo é pouco conhecido e praticado. A ordem Jerrahi conta hoje, em São Paulo, com duas tekkés, isto é, espaços para o culto.
Uma delas, em Cotia, onde o sheikh Ismail Çimen reúne um grupo de seis dervixes. Nascido em Istambul, na Turquia, o sheikh mora no Brasil há 11 anos, mas recebeu a autorização para ser mestre há dois anos e meio. Músico, o sheikh Çimen toca ney, a flauta de junco da música sufi, e o alaúde oriental, um instrumento de cordas também utilizado nas cerimônias.
Ao contrário do que se possa pensar, não são apenas árabes, turcos ou nascidos em famílias muçulmanas os que abraçam o sufismo. O próprio sheikh Muhammad Ragip, da tekké da Penha, em São Paulo, é um exemplo de ingresso no Islã a partir do sufismo. Apresentado à religião na Turquia, sheikh Ragip é quem conduz as reuniões semanais às quintas-feiras e domingos. Quanto ao número de freqüentadores, sheikh Ragip afirma ter conhecido desde ordens com três pessoas até milhares. Em São Paulo há também, por exemplo, a ordem Chazulya Iachrotia, que se reúne em São Bernardo do Campo e conta com, pelo menos, 350 pessoas.

Zikr: lembrar de Deus em todos os momentos
Nas paredes da tekké da tarika Halveti Jerrahi, na Penha, pode-se ler, em quadros versículos, do Alcorão e hadiths (dizeres do profeta Mohamed) em árabe. Há ainda fotos de peregrinos em Meca e dervixes dançarinos na Turquia. No encontro, que começou com seis pessoas num final de tarde de quinta-feira, ocorreu primeiro a salat (reza). Repetições de versículos do Alcorão e genuflexões, tudo conforme as normas seguidas por todos os muçulmanos, sufis ou não. A diferença, contudo, é o intuito: a busca interior de um caminho de amor. “O muçulmano, quando faz a oração, faz porque Deus mandou fazer.

Rodopio Dervixe, pintura de Pamela Rigsby de 1996
Os sufis o fazem com certa sabedoria e consciência”, argumenta o sheikh Çimen. Após a oração, acontece o zikr. O termo, que significa lembrança, rememoração, designa a parte da cerimônia na qual, através da repetição dos atributos e nomes divinos de Alá, presentes no Alcorão, ele é lembrado, invocado. Também são entoados seguidamente “La ilaha ill-Allah”, que significa “Não há divindade a não ser A Divindade” e hinos religiosos. O grupo, no zikr, é dividido em três: o mestre, que administra o grupo; os dervixes e os músicos.
Esses dividem-se entre os que tocam os instrumentos de sopro, como a ney, os que tocam os de percussão, como o kanun e o bandir, e os que cantam. A música é tida como fundamental para os sufis. “Ela é entendida como um instrumento para alimentar o amor na prática”, diz o sheikh Çimen. São vários os rituais possíveis na cerimônia dervixe. A Ordem Mehlevi, por exemplo, fundada por Rumi, tem a conhecida samma, na qual são feitos movimentos circulares com uma mão para cima e uma para baixo, que representa o dervixe sendo o instrumento de Deus, recebendo sua benção e transmitindo-a para esse mundo.

Música é tida como fundamental para os sufis
A base da movimentação é para ensinar o corpo a sintonizar-se ao coração. No zikr da tekké da Penha, os dervixes, com instrumentos ou apenas cantando, são orientados pelo mestre, que puxa o coro e os movimentos com a cabeça, ora circulares ora de um lado para o outro. Há dois círculos separados, um de homens e um de mulheres que, depois do zikr, saboreiam um simples e leve jantar – uma sopa de legumes, esse dia. Logo em seguida há outra reza e, finalmente, novo zikr, dessa vez acompanhado por um instrumento percussivo e a ney.

O sufismo
Há várias hipóteses quanto à etimologia da palavra sufi. O termo suf (lã, em árabe), pode ser uma das origens, aludindo aos mantos de lã que vestiam os primeiros sufis. O sheik Çimen, contudo, refuta a justificativa do traje e defende duas outras possibilidades. A primeira, relacionada à expressão ahl al-suffah (“os do sofá”), que designa um grupo de companheiros do profeta que ficavam em sofás, apartados na mesquita de Medina, dedicados à devoção. A segunda, remete à raiz verbal árabe safá, que significa purificar-se, e remete ao entendimento do sufismo como um caminho de pureza.

A submissão do ego guiada pelo mestre
Existe uma hadith que diz que “Aquele que conhece a si mesmo conhece ao seu senhor”. O “a si mesmo” da frase, explica o sheikh Ismail Çimen, remete ao seu ego e os perigos que ele pode representar se não for educado. Assim como Islã quer dizer submissão, o sufismo busca a correção do ego para que este seja um instrumento de satisfação e ligação com o divino, acrescenta o religioso. Para os sufis, a vida do ser humano se resume a uma luta entre o caos e a harmonia, o múltiplo e o único, o egoísmo e o amor.

Mesquita da Imperatriz de Isfahan - Irã
Para ajudar a disciplinar o ego, o dervixe conta com a ajuda do mestre da ordem, o sheikh (nome que significa, na etimologia, ancião). O sheikh é um vetor orientado na direção de Deus, que precisa estar em conexão com Ele e receber certa forma de inspiração. Além disso, é imprescindível o contato com o fundador de sua escola e o estudo por vários anos nela, além de passar por um teste. O teste de iniciação também existe para o dervixe. Não se trata, entretanto, de regras pré-definidas, mas do envio de um sinal que será interpretado pelo mestre.
Pode até ser um sonho, de maneira que o dervixe deve contar todos os seus para seu mestre. O murshid (termo que significa guia para o bom caminho) identifica a capacidade que a pessoa tem de amar e o aspirante a dervixe, de sentir-se confortável com o grupo. Existe, contudo, a possibilidade de uma pessoa não ser iniciada e até de o murshid receber a recomendação de não iniciá-la. Nem todo murshid é um pir, mas todo pir é um murshid.
Pir é o fundador de uma ordem (ou tariqa), aquele a quem o sufismo atribui o ápice do desenvolvimento espiritual no caminho do homem perfeito. O pir atingiu tamanho grau de fusão com o Criador que conseguiu chegar ao êxtase, um estado de consciência ampliada. É o que os sufis chamam de “morrer antes de morrer” para, assim, poder voltar e cumprir a missão de guiar as pessoas pelos estágios de ampliação da consciência.

História e clandestinidade
Os sheiks acreditam que, embora não se apresentasse ainda com esse nome, o sufismo existe desde o profeta Mohamed, que foi o primeiro mestre, assim como foram sufis os quatro califas que o seguiram. Contudo, argumenta-se que as ordens começaram a se mostrar como uma reação ao afastamento da mensagem original do Islã, frente à corrupção que se estendia entre as classes dirigentes. Ordens famosas, como a dos dervixes Mehlevi e sua dança cósmica circular, foram extintas.
Segundo o sheikh Çimen, os Mehlevi, assim como todas as ordens na Turquia, foram proibidos de fazerem seus cultos, quando Kemal Atatürk proclamou a república em 1923. Atatürk baseava a proibição no argumento do ingresso na modernidade. Até 1960, portanto, as ordens existiram secretamente e só sobreviveram as que não necessitassem da música em seu cerimonial em volumes muito audíveis. Devido às alterações do ritual de algumas, os sufis alegam que houve a perda do baraka, isto é, o vínculo espiritual que se estabelece a partir do momento que se pratica, que protege e conduz o fiel. Hoje, contudo, o samma é tido até como dança folclórica, apresentada aos turistas, embora sem o baraka.

Orientalismo sem baraka, um equívoco
O sufismo nunca foi possível sem o Islã. O sheikh Muhammad Ragip explica que essa distorção é fruto da onda orientalista de meados do século 20 e de iniciados que vieram para a América difundir o cerimonial, sem mencionar ou exigir o Islã como base. Os mestres religiosos argumentam, entretanto, que todos os pensadores sufis foram muçulmanos.
Além disso, “toda a ordem sufi tem uma silsila, espécie de mapeamento das iniciações que remontam sempre ao profeta”, lembra o sheikh Ragip. Segundo ele, silsila também identificaria a manutenção do baraka ao longo dos anos. “A prática espiritual sem baraka é nada”. E completa: “Pode até desenvolver concentração e disciplina, mas isso é psicológico e não espiritual”.

O que se pode expressar com palavras não é sufismo
Os sufis desejam uma plena conexão com Deus e, para isso, não acreditam no racional para explicar tudo. Ser sufi é acreditar não apenas no que se vê, mas buscar o contato com o transcendente e metafísico. E para atingi-lo, não é suficiente apenas ler os principais poetas sufis, como Rumi e Attar, donos de célebres obras como “Fihi ma fihi
– O livro do interior” e “Linguagem dos Pássaros”, respectivamente, ou ainda de Omar Khayam, Sa’adi, ‘Attar e Hafiz. A prática é essencial. Sheikh Çimen sintetiza a partir de uma metáfora: “A água não tem um gosto que dê para explicar, o vento não tem cor. Não dá para explicar o amor. O sufismo não é um caminho de informação, mas de experiência”.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A Revolta do Malês de 1835


Para  quebrar um pouco a hegemonia de grandes estudioso aqui no blog, eu estou postando esse artigo que originalmente foi escrito como um trabalho para a disciplina de História do Brasil II. Tento neste artigo correlacionar a revolta escrava com uma situação peculiar ao período histórico que aqueles escravos viveram, ou seja, a chamada era das "Jihad's Nacionais", que perduraram por todo o século XIX em boa parte do mundo islâmico e foi ocasionada principalmente pelo enfraquecimento do poder otomano, a sequente perda de territórios para as potências européias, destacadamente Inglaterra e França e o crescimento demografico de comunidades islâmicas, principalmente no Extremo Oriente (notadamente a crição de Estados Muçulmanos apoiados pela irmandade naqshbandi na China).



A Revolta dos Malês de 1835: O Episódio brasileiro na era das Jihad’s


Por Radamés Rodrigues *
O Presente artigo pretende analisar a revolta dos malês como uma extensão das “jihad’s” empregadas no Sudão Central por reformadores muçulmanos como Usman Dan Fódio, além de analisar a origem étnica e cultural desses escravos para que se possa compreender como uma revolta de caráter tão particular transformou-se numa das maiores revoltas escravas das Américas.


A Revolta dos Malês.

Na madrugada do dia 25 de janeiro de 1835, uma patrulha de milicianos abordaram o cidadão Domingos Marinho de Sá, que se encontrava na janela de sua residência, um sobrado de dois andares na ladeira da praça[1], em Salvador, Bahia. No sobrado havia também estabelecido residência o senhor Manoel Calafate, um dos lideres da revolta. No sótão dessa mesma residência um grupo de escravos, comemoravam uma celebração muçulmana referente ao ramadã – o mês sagrado do calendário muçulmano – tal celebração era a Laylat al-Qadr ou a Noite da gloria – uma das dez ultimas noites do mês de Ramada, simboliza o inicio da revelação do alcorão –  além de acertarem os últimos preparativos para o que ficaria conhecida na história do Brasil como a Revolta dos Mâles.
Esses manifestantes saíram armados com paus e espadas quando perceberam que a policia estava no local, deflagrando o primeiro confronto dessa revolta que assolaria grande parte do perímetro urbano de Salvador.
A primeira vista, este fato parece pouco importante, dado que revoltas e rebeliões escravas ocorriam com certa freqüência e com características bastante peculiares. Porém, um dos dados que mais impressiona é o apontado por João José Reis, quanto ao numero de manifestantes, segundo ele, os 600 manifestantes identificados na época pelas autoridades nos dias atuais representaria algo em torno de 24 mil pessoas[2]. José Reis continua em seu livro dizendo:

Centenas de africanos participaram, cerca de 70 morreram e mais de 500, numa estimativa conservadora, foram depois punidos com penas de morte, prisão, açoites e deportações. Se uma rebelião das mesmas proporções acontecesse hoje(1985) em Salvador, com seus 1 milhão e 500 mil habitantes, resultaria na punição de cerca de 12.000 pessoas.[3]

Salvador, Bahia em meados do século XIX.
Esta pequena passagem da uma idéia do que foi o conflito, mas é preciso entender a sua gênese, e para isto, precisamos saber quem foram os Malês. Podemos por descuido pensarmos que os malês eram um grupo homogêneo, porém, esta linha de pensamento é assaz errônea, tendo em vista a heterogeneidade da própria sociedade baiana. A verdade é que esses escravos vinham de grupos étnicos tão distintos quanto os ewes, os jeje, os iorubanos (aqui conhecidos como nagôs) e outros povos provenientes da Senegâmbia além do povo hauçás.
Esses povos vinham de uma faixa de terra conhecida como Sudão Central ou como os árabes a chamavam Bilad al Sudan, onde importantes estados muçulmanos se estabeleceram a partir do século XV, e no século seguinte os povos do Sudão Central viram o auge do reino Kanem-Bornu, principalmente sob o comando de Idris Aloma que o governou de 1570 até 1619[4]. O reino de Bornu, também, irá desempenhar papel significante na manutenção da ordem entre as nações hauçás que entravam constantemente em conflito. Sob o poder que Bornu impunha a região, havia uma certa proteção contra o mercado escravista, Paul Lovejoy nos mostra que: “Somente no final do século XVIII os escravos foram enviados dessa área para a Costa da Guiné onde embarcariam em direção as Américas, já então, em numero relativamente pequeno.”[5]
Podemos então concluir que os escravos que participaram do levante dos Malês, chegaram ao Brasil já em meados do século XVIII, coincidindo com as jihad’s que os reformadores islâmicos empregaram no Sudão a partir do final do século XVIII. Também é importante ter em mente que enquanto a influencia islâmica se propagava no Sudão, os escravos islamizados continuavam essa tendência nas ruas de Salvador.
O Próprio João José Reis aponta este ímpeto de crescimento que o Islã adquiriu aqui nas primeiras décadas do século XIX. Reis afirma que: “A rebelião aconteceu num momento de expansão do Islã entre os africanos que viviam na Bahia.”[6]. Tal afirmação pode soar um tanto estranha se tratando do Brasil, um país que tem uma distancia cultural acentuada em relação à tradição árabe – islâmica, mas Gilberto Freire, em seu clássico Casa Grande e Senzala, ao falar sobre os sudaneses e sua importância na propagação do Islamismo cita que:

Notou o Abade Étienne que o Islamismo ramificou-se no Brasil em seita poderosa, florescendo no escuro das senzalas. Que da África vieram mestres e pregadores a fim de ensinarem a ler no árabe os livros do Alcorão. Que aqui funcionaram escolas e casas de oração maometanas.[7]

Podemos notar quão arraigado estava o islamismo entre os africanos e como era possível perceber em uma rápida passagem pelo centro de Salvador, escravos se comunicando em árabe, ensinando religião a outros. Isto se dava, também pela mobilidade que os escravos tinham e seu livre transito pelas ruas, principalmente os “negros de ganho”, modalidade de escravatura, onde o escravo tinha a liberdade de sair durante o dia para vender determinada mercadoria ou serviço, tendo que retornar ao anoitecer e ceder parte dos ganhos ao seu senhor.
Outro precedente foi o uso da escrita, sob este aspecto Freyre também se manifesta, apontando o caráter erudito dos escravos frente à aguda ignorância nas quais viviam a maioria dos senhores brancos. Freyre afirma que: “È que nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez maior numero de gente sabendo ler e escrever do que no alto das casas-grandes.”[8]
O fato é que a própria estrutura de propagação do Islamismo no Sudão Central já nos remete a tal situação. Não há em muitos casos uma tradição literária entre esses povos, logo com a expansão do islã, e seus princípios – como a obrigatoriedade na ritualística muçulmana de se recitar capítulos do alcorão durante as orações – nota-se o grau de influencia realizado pelo islã, na tradição cultural dos povos sudaneses. Podemos notar o impacto da penetração muçulmana na cultura desses povos, a partir do que nos traz Francis Robinson:

O que resta da civilização islâmica, especifica do Sudão, reflecte o papel dos ulamas e do islão em geral na sua configuração. Ali persiste o árabe, língua que os muçulmanos introduziram na região e que foi a primeira que os Sudaneses aprenderam a ler e a escrever. O árabe foi a linguagem da administração, do ensino, da correspondência e da história; e teve também uma grande influencia nas línguas indígenas, especialmente o haúça. O árabe é a língua em que nos chegou os estudos dos eruditos sudaneses [...][9]

Página do Alcorão, em árabe Al Qur'an Al Karim
Isto mostra que o grau de desenvolvimento intelectual entre os escravos era superior ao da maioria dos senhores brancos que muitas vezes precisavam apelar ao capelão ou a um escrivão para redigir uma simples carta. Esta , talvez, tenha sido a maior vantagem dos malês, sob os senhores brancos. É certo que o domínio da escrita ajudou a colocar em pratica os planos dos revoltosos, algo bastante ambicioso, a tomada de Salvador, a morte dos senhores brancos, além de rumarem até o recôncavo para se unirem aos seus irmãos escravos e enfim formar um califado.
Outro importante aspecto é a figura do alufá ou mestre, estes foram os grandes organizadores da revolta, homens com conhecimentos sobre a religião e que atuavam como conselheiros, no contexto da revolta, um dos personagens mais conhecidos era o idoso Pacifico Licutan ou seu nome islâmico Bilãl, um estimado alufá que estava preso, não por suspeitas de conspiração, mas por dividas referentes ao seu antigo senhor. Tal peculiaridade, unida ao fato de que os malês portavam junto a eles amuletos onde haviam inscrições em árabe, passagens do sagrado alcorão e rezas, – pedindo  proteção contra os males desta terra e da outra – mostra que esses muçulmanos eram adeptos da corrente sufista, uma vertente do Islã que era extremamente popular, além de  predominante no Magreb – compreende as regiões do Norte da África – a esse respeito, José Antônio Teófilo Cairus nos revela que: “No Sudão, as antigas irmandades Qadiria e Shadilia foram assimiladas pelos clãs locais. O relacionamento entre o sheykh e seus seguidores era direto e pessoal, sem qualquer outra organização ou procedimento mais elaborado.”[10]
A tradição sufista, extremamente arraigada no principio de obediência ao murshid – mestre – vai ser a via mais viável para que estes rebeldes possam se organizar, tendo também em vista que o próprio Usman Dan Fódio foi mestre sufista da tradição Qadiria[11].
Shehu Usman dan Fodio, 1754–1817
Este que fora sem duvida a maior personalidade das jihades na África, Shehu Usman Dan Fódio (1754 – 1817) iniciou uma campanha de reforma moral contra o pseudo-islamismo do rei de Gobir. Homem letrado e considerado alim – erudito – Xeque Usman instruiu-se com o melhor da erudição produzida no mundo muçulmano sem ter abandonado o Sudão, foi discípulo de El-Hadj Djibril e empregou uma guerra santa contra o que ele dizia ser o paganismo. Depois de uma serie de batalhas Xeque Usman vai finalmente em 1809 fundar o Califado de Sokoto.
Estas conexões entre os movimentos jihadistas que brotaram pelos quatro cantos do dar al- salaam – as terras muçulmanas – e os escravos islamizados da Bahia pode ser subsidiada por um dado apontado por Alberto da Costa e Silva. Segundo ele durante todo o século XVI os europeus levaram da costa Atlântica por volta de 1.868.000 escravos[12], muitos deles espólios de guerra que eram trocados por armas e cavalos ou outras mercadorias, quando não vendidos a baixo preço[13].
A investida dos malês durou toda a madrugada daquela noite de 25 de janeiro e só foi ser contida no Quartel em Água de Meninos, onde a cavalaria esmagou o levante, porém, o plano dos malês realmente consistia em atacar o Quartel e de lá rumar em favor dos escravos do Recôncavo Baiano. Seus planos foram então barrados pelas forças de cavalaria que se encontravam no local e impuseram pesadas baixas aos rebeldes, sem levar em consideração os que se atiraram ao mar para tentar escapar a nado e acabaram por se afogar.
Se do ponto de vista militar a revolta foi mal-sucedida, ela não deixou a desejar em organização. A estrutura de aprendizagem que esta diretamente vinculada aos esforços de propagação da religião pelos malês, propiciou um ambiente intelectual favorável ao ensino não só da cultura religiosa, mas da escrita, que era fundamental para a profissão de fé e se manifesta sutilmente na confecção dos amuletos utilizados pelos próprios malês. Ao contrario do que se possa pensar, não eram somente os eruditos no árabe que os confeccionava, mas também os novos aprendizes o que constituía um meio pedagógico dinâmico.[14]
As senzalas rapidamente se converteram em madrassas, – escolas corânicas – mas não somente nisto, os malês se reuniam para as orações diárias e também para celebrações religiosas. As festividades tinham como palco muitas vezes refeições coletivas como o ifhtar – refeição de quebra do jejum no mês de Ramada – entre outras.  João José Reis descreve outra cena do cotidiano dos muçulmanos soteropolitanos, reunidos para congregarem:

Era também à mesa que os malês festejavam suas principais datas religiosas. Destas, pudemos identificar positivamente o Lailat al-Miraj (a ascensão do profeta Maomé ao céu), que teve lugar no final de novembro de 1834, [...] Naquele ano, o dia 26 de Rajab (sétimo mês do calendário islâmico), data da tradicional celebração, caiu exatamente num sábado, 29 de novembro.[15]
 
Podemos então observar que em tais ocasiões, os integrantes do bloco conhecido como malês estavam reunidos. Possivelmente planejando, ou simplesmente congregando em comunidade, e ou, elevando suas preces para o estabelecimento de um califado na Bahia.
Concluímos que o Levante dos Malês, é um fato singular, não somente para que se possa entender mais sobre a escravidão, mas também, e principalmente para que possamos compreender a multi-etnicidade dos escravos e a consciência dos seus anseios e projetos. Este esforço de percepção é importante para que não entremos em discussões errôneas acerca da passividade com que os escravos viam à sua própria condição social. É também de suma importância, percebermos através de pequenas cenas do cotidiano, como, aqueles revoltosos tombados a frente do Quartel de Água de Meninos, tinham uma conexão e por conseqüência uma proximidade com os problemas e paradigmas que enfrentavam os muçulmanos que vivenciaram o reformismo de suas sociedades durante todo o século XIX.

Bibliografia:

CAIRUS, José Antônio Teófilo. Jihad, Cativeiro e Redenção: escravidão, resistência e irmandade, Sudão Central e Bahia (1835). Rio de Janeiro, 2002. 223 p. disponível em: http://www.cipedya.com/web/FileDetails.aspx?IDFile=149276 . Acessado em: 14/05/2009.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala: introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil - 1. 43.ed Rio de Janeiro: Record, 2001.

KI-ZERBO, Joseph. História da África negra. 3. ed. rev. e atual Mira-Sintra: Europa-América, 1999.

LOVEJOY, Paul E. A escravidão na África: uma história de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês (1835). Editora brasiliense,1986. P.137.

REIS, João José. A revolta dos malês em 1835. disponível em: http://www.smec.salvador.ba.gov.br/documentos/a-revolta-dos-males.pdf. Acessado em 18/05/2009.

ROBINSON, Francis. O mundo islamita : esplendor de uma fé. Madrid: Del Prado, 1996.

SILVA, Alberto da Costa e. A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, Fundação Biblioteca Nacional, Dep. Nacional do Livro, 2002.



 * Graduado em História pela Universidade do Extremo Sul  Catarinense.
[1] REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês (1835). Editora brasiliense,1986. p 91.
[2] REIS, João José. A revolta dos malês em 1835. disponível em: http://www.smec.salvador.ba.gov.br/documentos/a-revolta-dos-males.pdf . Acessado em: 18/05/2009.
[3] Ibidem. P.7.
[4] ROBINSON, Francis. O mundo islamita : esplendor de uma fé. Madrid: Del Prado, 1996. P.97.
[5] LOVEJOY, Paul E. A escravidão na África: uma história de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. P.126.
[6] REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês (1835). Editora brasiliense,1986. P.137.
[7] FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala: introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil - 1. 43.ed Rio de Janeiro: Record, 2001. P.367.
[8] Idem. P.357.
[9] ROBINSON, Francis. O mundo islamita : esplendor de uma fé. Madrid: Del Prado, 1996. P.99.
[10] CAIRUS, José Antônio Teófilo. Jihad, Cativeiro e Redenção: escravidão, resistência e irmandade, Sudão Central e Bahia (1835). Rio de Janeiro, 2002. 223 p. disponível em: http://www.cipedya.com/web/FileDetails.aspx?IDFile=149276 . Acessado em: 14/05/2009.
[11] KI-ZERBO, Joseph. História da África negra. 3. ed. rev. e atual Mira-Sintra: Europa-América, 1999. P. 14.

[12] SILVA, Alberto da Costa e. A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, Fundação Biblioteca Nacional, Dep. Nacional do Livro, 2002. P. 503.
[13] Idem. P.514.
[14] REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês (1835). Editora brasiliense,1986. P. 129.
[15] Idem. P.132.
 

domingo, 10 de abril de 2011

A vida de Muhammad através da interpretação de seu seguidor filosofo

É com imenso prazer que público esta resenha do coordenador do departamento de linguas orientais da USP, o Prof. Mamede Mustafa Jarouche, que entre outros trabalhos notaveis é tradutor da coletânea de histórias conhecidas como As Mil e Uma Noites. O texto a seguir é uma resenha de uma importante biografia do Profeta Muhammed (conhecido dentro da teologia islâmica como sira), escrito por ninguém menos que Martin Lings. Lings foi um grande estudioso da lingua árabe e cultura islâmica, seus textos (infelizmente, poucos já possuem edição nacional) abordam temas do Islam tradicional, da espiritualidade islâmica (tasawwuf) e assuntos de cunho esotérico (a dimensão interior das religiões que são na verdade a transmutação para o estágio conceitual dos valores que permeiam os atos devocionais) abordados a partir de um aporte teórico que ficou conhecido na filosofia e ciências humanas de modo geral como Sophia Perennis ou perenialismo. Para os interessados em adquirir a obra podem faze-lo no site da editora Attar.
Radamés

Maomé por um fiel do Ocidente

Por Mamede Mustafa Jarouche

 

Conta a tradição muçulmana que o próprio Muhammad (m. 632 d.C.), fundador da religião muçulmana, teria recomendado aos discípulos que se abstivessem de relatos sistemáticos sobre as suas ações. Seu argumento, deveras razoável e ponderado, era o de que, sendo ele um simples ser humano – embora investido de missão profética, segundo a crença da religião que fundou – cometera tanto acertos como, eventualmente, erros, de modo que lhe registrar as ações, conferindo- lhes caráter sagrado, poderia consistir, aos olhos do vulgo, em legitimação de atos nos quais ele porventura houvesse cometido algum equívoco e depois se arrependido.
Lings usa fontes tradicionais sem modismo
A recomendação foi quebrada menos de um século após a sua morte, com registros basicamente divididos em dois gêneros: de um lado, a sira, biografia propriamente dita, que obedece ao formato tradicional das biografias, relatando sistematicamente toda a sua vida, desde a origem e apresentando o claro propósito de fortalecer o moral dos muçulmanos com uma narrativa exemplar que enfatiza justeza e verdade da missão do profeta, bem como as suas façanhas, divinamente inspiradas, em defesa da nova fé; de outro, o hadith, conjunto de relatos sobre ações, ditos e mesmo silêncios do profeta que foram utilizados como uma das fontes da legislação e da jurisprudência islâmicas, ao lado do Alcorão e da sunna, a prática ortodoxa dos primeiros conversos ao islamismo. Nessa linha, o hadith é menos laudatório que a sira, pois obedece a determinações diversas e mais eminentemente pragmáticas, ao passo que a primeira, conquanto pudesse fazer parte dos rituais de adoração, também servia, ocasionalmente, a propósitos mais ornamentais; embora seja natural o interesse pela figura do fundador de sua religião entre os muçulmanos, as inovações no gênero são relativamente escassas, com eventuais compiladores e historiadores retomando o que dissera Ibn Hisham e utilizando as fontes usuais do hadith. Mais modernamente, em especial a partir do século passado, é que começaram, de modo tímido, a espocar novidades aqui e acolá no âmbito do islã.
O pioneiro na vertente da sira (biografia) foi Ibn Ishaq (m. 768 d.C.), cuja obra, pelo visto controversa, se perdeu, tendo sido resgatada e reescrita mais tarde por Ibn Hisham (m. 828 d.C.), que deu à narrativa sobre a vida de Muhamad o formato tradicional geralmente aceito até hoje, caracterizado por uma aura sagrada e honorável. Já na segunda vertente, o hadith, a palma cabe com todos os méritos a Muslim (m. 875 d.C.) e Al-Bukhári (m. 870 d.C.), compiladores e sistematizadores de grandeza ímpar. Aliás, esse segundo gênero, o hadith, teve enorme fortuna, com a produção de inúmeros tratados ao longo dos séculos, fato esse assaz compreensível caso se leve em conta a sua importância para a própria legislação muçulmana, a shari’a.
Ao contrário do programático convencionalismo das biografias escritas em terras do islã, no Ocidente, conforme seria de se esperar, os diferentes interesses em torno da personalidade do profeta bem como do próprio islã tornam a oferta mais variada, e isso desde os primórdios, na Idade Média, com textos que vão da diatribe mais aberta à proposta de conciliação, passando, também, pelo desejo honesto de compreender essa alteridade.
Moderna, a biografia do inglês Martins Lings (1909-2005), Muhammad, é mais uma tentativa, decerto a mais bem lograda no Ocidente, de tornar legível a biografia e os feitos do homem que lançou um dos maiores desafios que a cristandade teve de enfrentar. Convertido ao islã, Lings, cujo nome árabe era Abu Bakr Siraj Ad-Din, escreve um texto cuja raridade está justamente num hábil cruzamento a que poucos se arriscam: seu relato, por um aparte, utiliza com abundância, generosidade e respeito as fontes tradicionais, sem se deixar envolver por modismos críticos aplicáveis ao caso; de outro, não abre mão do rigor de explanação, com notas, remissões e citações constantes, que conferem um cunho de legitimidade acadêmica ao seu trabalho.O resultado é um texto escorreito, cuja fluência se lê com agrado, e aderente ao ponto de vista das fontes, plenamente justificada pela conversão do autor,muçulmano devoto. Essa adesão se faz de maneira bastante sutil,com recursos poéticos na medida certa, sendo possível citar como exemplo todos os relatos sobre eventos por assim dizer sobrenaturais, os quais, recolhidos nas fontes primitivas onde se encontram descritos, são reproduzidos com tal habilidade pelo autor que o leitor passa ao largo de sua “cumplicidade”, diga-se assim, com o biografado.
Enfim, um arabista não poderia ainda deixar de ressaltar, ao lado da qualidade material da edição, os cuidados com a transcrição dos nomes árabes, o que é inusual em muitas obras similares. Sem temer o risco de causar estranhamento no leitor, a edição não hesita em lançar mão de diacríticos nas letras latinas a fim de ficar mais próxima dos sons do original. Assim, o leitor não deve surpreender-se ao encontrar, logo na capa, a palavra Muhammad do título com um pingo sob o “h” para transcrever um fonema fricativo laringal surdo que existe em poucas línguas além do árabe.

 

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O TERRORISTA NÃO PODE SER MUÇULMANO. O MUÇULMANO NÃO PODE SER TERRORISTA

Es-selamun aleykum ve rehmatullahi ve berekatuhu. Agradeço aos nossos colegas do blog Minare-i Nûr pelo excelente trabaho prestado a toda a ummah (comunidade islâmica) brasileira e também aos não muçulmanos. O sentido dessas palavras de M Fethullah Güllen é muito amplo e não se refere apenas a islamofobia a qual nós estamos reféns aqui no ocidente, ou do suposto Choque de Civilizações proposto por Huntington. Este se trata da própria parcela de culpa que os muçulmanos, evidentemente aqueles com poder de ação para tal, possuem no dramático estado de coisas que se tornou a maioria dos países islâmicos da atualidade. Reproduzimos aqui a materia originalmente difundida em lingua portuguesa pelo blog Minare-i Nûr.

O TERRORISTA NÃO PODE SER MUÇULMANO. O MUÇULMANO NÃO PODE SER TERRORISTA

"No VERDADEIRO ISLAM, não existe terrorismo!”

Por: M. Fehtullah Güllen


Os muçulmanos devem dizer: “No verdadeiro Islam, o terrorismo não existe”.

Hoje, o melhor que se pode dizer sobre o Islam é que ele é completamente desconhecido. Os muçulmanos devem dizer: «No verdadeiro Islam, o terror não existe». No Islam, matar um ser humano é um ato tão grave como a infidelidade. Ninguém pode matar um ser humano. Ninguém pode tocar numa pessoa inocente, inclusive nos tempos de guerra. Ninguém pode emitir um fatwa (pronunciamento legal no Islam) sobre este assunto. Ninguém pode ser um terrorista suicida.

Ninguém pode gloriar-se sobre uma multidão com explosivos no seu corpo, seja qual for a religião dessa multidão, já que o Islam não permite isso. Inclusive em situações de guerra — quando é difícil manter um equilíbrio — isso não é permitido no Islam. O Islam diz: “Não toqueis nas crianças nem nas pessoas que fazem adorações nas igrejas”. Isto não foi dito uma só vez, isso foi repetido no decorrer da história. O que expressou nosso educador, o Profeta Muhammad, o que disse Abu Bakr e o que ressaltou Omar é o mesmo que posteriormente disseram Salahaddin Ayyubi, Alparslan e Kılıçarslan.

Mais tarde, o Sultão Mehmet II (do Grande Estado Otomano), o Conquistador, aplicou esta regra depois da conquista da capital do Império Bizantino. Depois disso, a cidade de Constantinopla, onde reinava o desconcerto, converteu-se em Istambul. Nesta cidade, gregos, armênios, cristãos, judeus e muçulmanos, enfim diferentes nações e crenças conviviam uns com os outros com total liberdade e em paz. Pouco tempo depois da conquista de Constantinopla, as pessoas da cidade colocaram na muralha um enorme retrato do Conquistador no lugar do retrato do Patriarca. É inacreditável que esse comportamento se manifestasse naquele momento. A história conta que o Sultão chamou o Patriarca e lhe deu a chave da cidade. Inclusive hoje, o Patriarcado se lembra dele com respeito. Sem dúvida, hoje, o Islam, como em tantos outros aspectos, não é compreendido devidamente. O Islam tem respeitado sempre diferentes pontos de vista e idéias, e isto deve ser entendido para que possa ser valorizado adequadamente.

Lamento dizer que nos países onde vivem os muçulmanos, alguns líderes religiosos e muçulmanos imaturos não têm mais armas à mão do que sua interpretação fundamentalista do Islam. Usam-na para atrair algumas pessoas para lutas que servem para seus próprios propósitos. De fato, o Islam é uma fé verdadeira e deve ser vivida sinceramente. Com o fim de alcançar a fé não se pode usar meios falsos. No Islam, do mesmo modo que uma meta tem que ser legítima, também o tem todos os meios para alcançá-la. Desta perspectiva, uma pessoa não pode alcançar o Paraíso assassinando outra pessoa. Um muçulmano não pode dizer: “Vou matar uma pessoa e desta maneira ir ao Paraíso”. O beneplácito, a aprovação de Deus não se alcança matando as pessoas. Um dos objetivos de maior importância para um muçulmano é conseguir a aprovação de Deus. Outro é dar o conhecimento ao universo do nome de Deus Todo-Poderoso.

Os preceitos do Islam são claros. Os indivíduos não podem declarar a guerra. Um grupo ou uma organização tão pouco. A guerra é declarada por um estado, não pode ser declarada sem um presidente ou um exército. Se não fosse assim, trataria-se de um ato de terrorismo e em tal caso, empreenderia-se uma guerra reunindo ao redor de — e perdão por minha linguagem - vários bandidos. Qualquer pessoa pode reunir a outros a seu lado com este fim. Se as pessoas pudessem declarar a guerra a título individual, reinaria o caos; já que se formariam frentes por qualquer pequena diferença sem importância, incluindo pessoas sem juízo. Algumas pessoas diriam: “Declaro a guerra a tal e a tal pessoa”. Uma pessoa que seja tolerante com o Cristianismo poderia ser acusada da seguinte maneira: “Esta pessoa ajuda ao Cristianismo e enfraquece o Islam. É preciso ser hostil com ele e matá-lo”. O resultado seria uma declaração de guerra. Felizmente, isto não é tão fácil. Quem fizer isso — apesar de que sejam eruditos que admiro — não declara uma verdadeira guerra. Isto contradiz o espírito do Islam. As normas sobre a guerra e a paz estão claramente estabelecidas no Islam.

Não existe um autêntico mundo muçulmano

Na minha opinião, não existe realmente um mundo muçulmano. Em certos lugares vivem mais muçulmanos que em outros. O Islam se converteu num modo de vida, numa cultura; não é seguido como se fosse uma fé. Há muçulmanos que reestruturam o Islam segundo suas idéias. Não me refiro aos muçulmanos radicais e extremistas, mas aos muçulmanos comuns que vivem o Islam como se deve.

É condição indispensável do Islam, crer «verdadeiramente» e viver de acordo com o mesmo. Os muçulmanos têm que assumir as responsabilidades referentes ao Islam. Não se pode dizer que semelhantes sociedades com estes conceitos e com esta filosofia existem na geografia islâmica. Se dissermos que existem, então estamos difamando o Islam. Se dissermos que o Islam não existe, estaremos então difamando os seres humanos. Não creio que os muçulmanos possam contribuir muito para o equilíbrio do mundo num futuro próximo. Não vejo nossos administradores com essa visão. O mundo islâmico é bastante ignorante, apesar de seu moderado ressurgimento cultural em nossos dias. É possível comprovar este fenômeno durante o Hayy. Podemos ver isso manifestado em conferências e cartazes. Podemos ver isso em seus parlamentos através da televisão. Há uma séria desigualdade nesta questão. Eles — ditos muçulmanos — não podem resolver os problemas do mundo. Talvez isso se realize no futuro.

Hoje em dia existe um Islam “individual”. Há alguns muçulmanos em diferentes partes do mundo. Um a um foram se separando entre si. Eu, pessoalmente, não conheço a ninguém que seja um muçulmano perfeito. Se os muçulmanos não podem entrar em contato uns com os outros e se unirem para trabalhar juntos e resolver problemas em comum, interpretar o Universo, compreende-lo bem, considerar cuidadosamente o universo segundo o Alcorão, interpretar bem o futuro, gerar projetos para o futuro, determinar seu lugar no futuro, então não acredito que possamos falar de um mundo islâmico. Por não haver mundo islâmico, cada um atua de modo individual. Podemos inclusive dizer que há alguns muçulmanos com suas próprias verdades pessoais. Não podemos alegar que exista uma compreensão muçulmana com consenso, aprovada por especialistas capacitados, fielmente fundamentadas no Alcorão e repetidamente provadas. Poderíamos dizer que o que predomina é a cultura muçulmana em vez da cultura islâmica.

Isto tem sido assim desde o século V da Hégira (S.XI d.C.). Começou na era Abbasí e com a aparição dos Selyucidas. Aumentou depois a conquista de Istambul. Nos períodos seguintes, as portas das novas interpretações se fecharam. Os horizontes do pensamento se estreitaram. O ânimo do espírito do Islam se fechava sobre si mesmo. Começou assim a haver pessoas menos escrupulosa no mundo islâmico; pessoas suscetíveis, que não aceitavam os demais que não se abriam. Esta diminuição foi sentida também entre a irmandade dos dervixes. Dizem que também foi sentida nas madrasas (escolas de teologia). E, com certeza, todos estes princípios e interpretações precisam de revisão e renovação por pessoas experientes em seus campos.

A Rede Al-Qaeda

Uma das pessoas mais odiada no mundo é Osama (Usama) Bin Laden, por ter manchado o nome do Islam. Criou uma imagem muito ruim. Inclusive, ainda que tentássemos todo o possível para reparar o terrível dano ocorrido, levaríamos anos para repará-lo.

Falamos desta perversão por todas as partes e em diferentes fóruns. Temos escrito livros a respeito. Dizemos: “Isto não é Islam”. Bin Laden substituiu a lógica islâmica com seus próprios sentimentos e desejos. É um monstro, igual aos que lhe rodeiam. Se existir pessoas iguais a eles em qualquer outro lugar, não são nada mais que monstros.

Condenamos a atitude de Bin Laden. Sem dúvida, a única maneira de prevenir estes tipos de ações é que os muçulmanos que vivem em países que parecem ser islâmicos — e já disse com antecedência que não conheço nenhum país islâmico, mas países onde vivem muçulmanos — resolvam seus próprios problemas.

Deveriam pensar de modo diferente quando da escolha de seus líderes? Ou deveriam levar adiante reformas fundamentais? A fim de que cresça uma nova geração bem desenvolvida, os muçulmanos deveriam trabalhar para solucionar seus problemas. Não só seus problemas em matéria de terrorismo, atitude, sem dúvida, não aprovada por Deus, mas também no concernente às drogas e o cigarro, outras duas proibições feitas por Deus. Discrepâncias, agitação popular, pobreza inesgotável, a desgraça de ser governado por outros e ser insultado além de ter que agüentar ser governado por potências estrangeiras, são problemas que poderiam aumentar esta lista.

Tal e como disse Mehmet Akif Ersoy: a escravidão, problemas diversos, adicção, a aceitação de coisas não habituais e o escárnio são correntes. Tudo isto repugna a Deus, e tudo isso está fundamentalmente estabelecido em nossa nação. Superar isto, em minha opinião depende de ser um ser humano justo e dedicado a Deus.

A responsabilidade dos muçulmanos

É nosso erro; é um erro da nação. É um erro da educação. Um muçulmano de verdade, alguém que entende o Islam em todos seus aspectos, não pode ser um terrorista. É duro para uma pessoa ser muçulmano se está envolvido com terrorismo ao mesmo tempo. A religião não permite o assassinato de pessoas para cumprir uma meta.

Mas, que esforço fizemos para educar essas pessoas como seres humanos perfeitos? Com que elementos lhes vinculamos? Que tipo de responsabilidade tomamos em relação à educação, para que agora esperemos que não se tornem terroristas?

Podemos evitar que as pessoas se tornem terroristas através de algumas virtudes produzidas pela fé muçulmana, tal como o temor a Deus, temor ao Dia do Juízo Final e temor ao se opor aos princípios da religião. Sem dúvida, não estabelecemos a sensibilidade necessária sobre este assunto. Até esta data houve apenas algumas pequenas tentativas para tratar esta descuidada questão. Mas, infelizmente, alguns de nossos próprios compatriotas colocaram obstáculos no caminho.

Alguns dizem que os tipos de atividades que levamos à cabo não deveriam ser permitidas. Portanto, as matérias que ensinam cultura e moralidade, deveriam ser proibidas totalmente nas instituições de ensino. Às vezes, sustentamos que todas as necessidades da vida deveriam ser realizadas nas escolas. A educação sanitária deveria ser proporcionada e ensinada através dos médicos. As matérias que tivessem a ver com a vida em geral deveriam ser exaustivamente ensinadas na escola.

As pessoas deveriam ensinar como se comportar com suas futuras esposas e como educar seus filhos. Mas o assunto não se detém aqui. Tanto a Turquia como outros países que possuem uma grande população muçulmana sofrem do abuso de drogas, de jogo e de corrupção. Não tem ninguém na Turquia cujo nome não tenha sido envolvido em algum tipo de escândalo. Houve metas que deveriam ser alcançadas e o foram. Sem dúvida, ainda restam objetivos para serem alcançados. Não se pode perguntar a ninguém sobre isto. Não se pode pedir prestação de contas às pessoas encarregadas. Estão protegidos, amparados, e portanto, devem ser deixados em paz.

São pessoas que cresceram entre nós. Todos são filhos nossos. Por que alguns se tornaram garotos malvados? Por que alguns foram criados como metidos? Por que alguns deles se rebelaram contra os valores humanos? Por que alguns em seu próprio país se envolvem em atentados suicidas?

Todas estas pessoas cresceram entre nós. Portanto, houve alguma falha em sua educação. Logo, o sistema deve ter algumas deficiências, alguns pontos fracos que precisam ser examinados e eliminados. Em resumo, não foi dada a prioridade à educação do ser humano. Com isso, algumas gerações se perderam, se destruíram.

Uma juventude insatisfeita que perdeu sua espiritualidade. Certas pessoas se aproveitam deles, dando-lhes um par de dólares ou convertendo-os em robôs. Drogaram-nos. Trata-se de um tema que está no dia-a-dia das pessoas e que pode ser lida em todas as revistas. Abusaram destes jovens a tal ponto que podem ser manipulados. São utilizados como assassinos sob o pretexto de ideais loucos e fazem com que eles matem. Pessoas perversas pretendem cumprir certos objetivos utilizando estes jovens.

Transformaram-se em robôs. Numa ocasião, muitas pessoas foram assassinadas na Turquia. Este grupo matou certa pessoa; esse outro grupo matou a outra pessoa. Em 12 de março de 1971, todos se envolveram em uma sangrenta luta. O exército entrou em cena e interveio. Em 12 de setembro de 1980, as pessoas saíram para se vingar umas das outras. Todos se mataram. (A Turquia sofreu três golpes de estado militares durante a segunda metade do século XX. As datas mencionadas correspondem ao primeiro e ao segundo golpe respectivamente, que aconteceram pelo mal-estar social reinante).

Uns queriam conseguir algo matando os demais. Todos eram terroristas. Os que estavam de um lado eram terroristas; os do outro lado, também, e cada um qualificava a ação de modo diferente. Uns diziam: “Faço isto em nome do Islam”. Outros diziam: “Faço isto por minha terra e por meu povo”. Um terceiro dizia: “Luto contra o capitalismo e a exploração”. Eram apenas palavras. O Alcorão fala sobre as ditas “etiquetas”. São coisas sem valor. Mas as pessoas seguem matando. Todos matavam em nome de um ideal.

Em nome destes sangrentos “ideais”, muita gente foi assassinada. Não era nada mais que terrorismo. Tanto os muçulmanos como os não muçulmanos cometiam o mesmo erro. Estes assassinatos se converteram em uma meta “realizável”. Assassinar se converteu em um hábito. Todo mundo se acostumou a assassinar, apesar de que assassinar é uma ação perversa. Uma vez, um de meus mais queridos amigos matou a uma serpente. Era um licenciado em teologia e é agora um pregador. Como reação ante o que ele fez: não falei com ele durante um mês. Disse-lhe: “Essa serpente tinha direito de viver na natureza. Que direito tinhas de matá-la?”.

Hoje em dia a situação é tal que se matam dez ou vinte pessoas ou, se as baixas não são tão elevadas como se esperava, dizemos: “Isso não está tão mal, não morreram muitos”. Esta incrível violência se converteu em aceitável para as pessoas a um nível inacreditável. Costumamos dizer: “Está bem que o número de mortos seja só vinte ou trinta”. Em resumo, a sociedade em geral terminou aceitando isto como parte de nossas vidas.

Esta situação poderia ter sido evitada por meio da educação. As leis do governo poderiam ter prevenido isso. Alguns grupos minoritários e protegidos e os que não se pode deter exageram nos assuntos triviais e encobrem os insignificantes. Existe um remédio para isto. O remédio é ensinar a verdade diretamente. Devemos deixar claro que os muçulmanos não podem ser terroristas. Por quê? Porque as pessoas hão de compreender que, se fazem algo mal, “ainda que seja do tamanho de um átomo, pagará por isto nesta e na Próxima Vida” (O Alcorão, 99:7-8).

Sendo assim, matar a um ser humano é algo sério. O Alcorão diz que matar uma só pessoa é como matar todo o mundo. Ibn Abbas disse que o assassino permanecerá no inferno eternamente. É o mesmo castigo que o que se junta com os incrédulos. Isso significa que o assassino estará submetido ao mesmo castigo que o incrédulo. Portanto, no Islam o respeito ao castigo que receberá no Dia do Juízo Final, o assassino será considerado tão baixo como quem desprezou a Deus e ao Profeta (quer dizer: um ateu). Se isto é um princípio fundamental da religião, deveria ser ensinado através da educação.

* Autor deste artigo é M.Fethullah Gülen: www.fgulen.com (o site disponível em mais de 20 idiomas)

Hádice

Este post é um ato de reproduzir um belo hádice (dito ou feito atribuido a Seyydina Muhammed (que a paz e as bençãos de Allah estejam com ele)) que o nosso irmão Marcelo Hinz utiliza como descrição de seu profile no site de relacionamentos Orkut. Gostaria de agradece-lo por nos lembrar dessas valiosas palavras e que Allah o Altíssimo o bendiga por este ato, e que assim seja! Amin.




Khálid Ibn Al Walid narrou:


"Um beduíno foi ter com o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Deus, o Altíssimo, estejam sobre ele) e lhe pediu:
-Ó Mensageiro de Allah, vim te fazer algumas perguntas a respeito desta vida e da Outra.

Disse-lhe o Profeta de Deus:

-Pergunta o que quiseres. 

Pergunta: Gostaria de ser a pessoa mais sábia...
Resposta: Teme a Allah, e serás a mais sábia das pessoas.

P: Gostaria de ser a mais rica das pessoas...
R: Contenta-te, e serás a mais rica das pessoas no mundo.

P: Gostaria de ser a pessoa mais justa...
R: Deseja aos outros o que desejas a ti, e serás a mais justa das pessoas.

P: Gostaria de ser a melhor das pessoas...
R: Faze o bem aos outros e serás a melhor das pessoas.

P: Gostaria de ser a mais favorecida pessoa por Allah...
R: Ocupa-te cada vez mais em aprazer a Allah, e serás o mais favorecido por Ele.

P: Gostaria de completar a minha fé...
R: Se tiveres boas maneiras, terás completado a tua fé.

P: Gostaria de pertencer àqueles que praticam o bem...
R: Adora a Allah como se O estivesses vendo. Se não O estiveres vendo Ele te estará vendo. Dessa maneira
estarás dentre aqueles que praticam o bem.

P: Gostaria de ser obediente a Allah...
R: Se observares os mandamentos de Allah serás obediente.

P: Gostaria de estar livre dos pecados...
R: Banha-te das impurezas e estarás livre dos pecados.

P: Gostaria de ser elevado para a luz no Dia do Juízo Final...
R: Não faz mal a ti próprio nem a outras pessoas, e serás elevado na luz no Dia do Juízo.

P: Gostaria que Allah me concedesse Sua misericórdia....
R: Se tens misericórdia de ti e dos outros, Allah te garantirá Sua misericórdia no Dia do Juízo.

P: Gostaria que meus pecados fossem poucos...
R: Se pedires perdão a Allah, tanto quanto puderes, teus pecados serão muito poucos.

P: Gostaria de ser a mais honrada das pessoas...
R: Se não te queixares a nenhum dos teus semelhantes, serás a mais honrada das pessoas.

P: Gostaria de ser a mais forte das pessoas...
R: Se confiares em Allah, serás a mais forte das pessoas.

P: Gostaria de aumentar as minhas provisões...
R: Se te conservares puro, Allah aumentará as tuas provisões.

P: Gostaria de ser amado por Allah e Seu Mensageiro...
R: Se tu amares o que Allah e Seu Mensageiro amam, estarás dentre aqueles que são amados por Allah e Seu Mensageiro.

P: Gostaria de estar livre da ira de Allah, no Dia do Juízo...
R: Se não perderes a paciência com qualquer um de teus semelhantes, estarás salvo da ira de Allah no Dia do Juízo.

P: Gostaria que minhas preces fossem atendidas...
R: Se evitares o ilícito, as tuas preces serão atendidas.

P: Gostaria que Allah não me desonrasse no Dia do Juízo...
R: Se guardares a tua castidade, Allah não te desonrará no Dia do Juízo.

P: Gostaria que Allah me agraciasse com uma coberta protetora no Dia do Juízo...
R: Não descobre as faltas de teus semelhantes, e Allah te fornecerá proteção no Dia do Juízo.

P: O que me salvará dos pecados?
R: Lágrimas, humildade e enfermidade.

P: Quais são as melhores ações aos olhos de Allah?
R: Gentileza, modéstia e paciência.

P: Quem são as piores pessoas aos olhos de Allah?
R: Os exaltados e os mesquinhos.

P: O que aplaca a ira de Allah nesta vida e na Outra?
R: A caridade oculta e a bondade para com os pais.

P: O que extingue o fogo do Inferno no Dia do Juízo?
R: A paciência na adversidade e na desventura."

(Ahmad Ibn Hanbal)

European Muslim Women of Influence

Visitando o blog da irmã Salma fiquei surpreso e ao mesmo tempo muito feliz ou encontrar o link de uma web page (http://www.cedar-emwi.com/) que faz parte de um concurso para eleger as mais influentes muçulmanas da Europa. O evento ocorreu no dia 30 de Outubro de 2010, mas vale a pena ler as biografias das vencedoras do concurso, o website esta em inglês. E que venham as candidatas de 2011



domingo, 3 de abril de 2011

Cultura e intelecto

Traduzi este pequeno texto escrito por Abdassamad Clarke, que apesar de estar se referindo a realidade enfrentada na Inglaterra (e na Europa de modo geral), é bastante semelhante com os problemas que nós nos deparamos em nossa ummah (comunidade islâmica) aqui do Brasil. Espero que este texto abra espaço para discussões acerca dessa lastímável cisão que a comunidade islâmica vem enfrentando. 
Radamés

CULTURA E INTELECTO
 
Por Al Hajj Abdassamad Clarke

Os muçulmanos tem sido enganados pela falha agenda do muliculturalismo que faz do Islam algo intrinsicamente estrangeiro.
A vestimenta é um desses aspectos. A questão da vestimenta, tanto para homens quanto para mulheres, é a modéstia e o ato de cobrir aquilo que não pode ser visto em público. Cada raça, nação e cultura encontrou algo de sua cultura indígena que se enquadrou nestes critérios. Muitos muçulmanos modernos do ocidente, ao contrário, vêem a questão como cultural, e que o Islam exige um certo estilo cultural de vestimenta. O resultado é o clima atual, em que os segmentos mais oprimidos, desfavorecidos e ignorantes de nossa sociedade estão sendo levados a acreditar que os muçulmanos são a fonte de todos os seus problemas, as mulheres muçulmanas, por exemplo, devem suportar as incessantes hostilidades quando vão efetuar seus afazeres diários porque elas escolheram ganhar destaque culturalmente como pertencentes a uma cultura estrangeira.
O design das mesquitas é outro ponto. Uma mesquita é basicamente um espaço aberto para a adoração a Allah. Se estiver um clima frio, provavelmente necessite de algo para se proteger do frio, se estiver um clima quente, ela precisa de áreas sombreadas para manter-se livre do sol. As antigas mesquitas árabes eram estilisticamente e arquitetônicamente diferentes das mesquitas persas, da qual difere-se das mesquitas chinesas, que são diferentes das mesquitas do sub-continente indiano ou das mesquitas otomanas, da qual é diferente da grande mesquita do Jenné. No entanto, no ocidente, as pessoas insistem em importar estilos alíenigenas de arquitetura que ficam a reforçar a agenda do "multiculturalismo" onde o Islam é uma cultura e não uma ciência, uma escola filosófica ou um estilo de vida.
Tudo isso resultou em uma resposta exaltada e hostil das populações nativas (os ocidentais) em relação ao Islam, que eles percebem como sendo cultural, precisamente porque os muçulmanos apresentam o Islam como sendo uma questão cultural, como algo estrangeiro. Além de causar sofrimento para um grande número de pessoas, isso prejudica o nosso dever fundamental, que é o de chamar as pessoas para Allah, O Altíssimo e ao seu Mensageiro (que Allah o abençõe e lhe dê paz), de uma forma racional e significativa e NÃO a uma de nossas muitas culturas nacionais ou uma cultura sincrético "islâmica".
Quanto ao símbolo de Islam "britânico" ou "europeu" que normalmente é apontado pelas pessoas menos qualificadas a fazê-lo, e cujo o movimento é irrefreável, mas esta não é a questão. Ninguém precisa criar uma forma "Britânica" de Islam, mas sim, devemos nos preocupar com o nosso din (sistema) e a identidade cultural vai falar por si própria.